as pessoas tem me perguntado onde eu trabalho
a resposta é complicada.
porque eu não tenho um trabalho. eu tenho três canteiros de obras.
e é neles que eu passo cada segundo da porra do meu dia.
um me financia.
o outro me abriga.
e o terceiro, o mais importante, me constrói.
esta é a planta baixa da minha vida. agora.
o primeiro canteiro. o necrotério.
de segunda a sexta, eu visto um disfarce. eu sento numa cadeira desconfortável, olho para um monitor que a história esqueceu, e opero dentro de um sistema público. um lugar onde a ambição vai pra morrer. um mausoléu de processos lentos e almas anestesiadas.
esse lugar não é a minha vida.
é o financiamento da minha vida.
é a fábrica de tijolos. um trabalho sujo, sem alma, mas que paga pela porra da argamassa que eu preciso para as outras duas obras. eu não vou lá pra ser feliz. eu vou lá como um mercenário. eu troco o meu tempo, a minha paciência, por recursos. cada minuto de tédio naquele lugar é convertido em combustível para o que realmente importa.
o segundo canteiro. a toca.
é pra cá que os recursos do necrotério vêm.
aqui, as paredes não são de gesso pintado de bege. são de barro, pedra e madeira velha. a porta não tem uma fechadura digital. ela tem a textura de cem anos de chuva e sol. não tem ar-condicionado. tem uma janela que se abre para o pôr do sol fodido de goiás.
isso não é uma casa. é a minha fortaleza. meu laboratório. meu monastério.
é a antítese do avatar de paris. é a primeira vez que eu construo um "chão" que eu posso tocar. um abrigo que não é feito de um mausoléu de fotos e projeções, mas de matéria bruta.
aqui, eu não preciso performar. eu não preciso ser o cara interessante.
eu só preciso ser.
e construir.
o terceiro canteiro. o arquiteto.
essa é a obra principal. a que dá sentido a todo o resto.
o dinheiro do necrotério e o abrigo da toca existem para servir a este único propósito: a manufatura de um novo eu.
o trabalho aqui é interno. brutal. implacável.
a fundação é a disciplina o açúcar cortado, o álcool banido, a dopamina barata caçada como um rato.
o andaime é o conhecimento: a engenharia reversa do poder na secretaria da fazenda, a maestria das minhas ferramentas, a busca pela "exceção".
o cimento é a clareza: a autópsia de cada fracasso, a aceitação da minha própria arquitetura, a rejeição da porra do sentimentalismo que me afogava.
cada dia, eu coloco um tijolo novo nesse prédio. um tijolo de autocontrole. um de conhecimento. um de verdade crua.
a visão. a confluência.
e no final, você entende.
os três canteiros não são separados. eles são um ecossistema.
o necrotério financia a toca.
a toca abriga o arquiteto.
e o arquiteto, com a sua obra interna, dá um propósito para a porra do sacrifício no necrotério e para a solitude da toca.
eu não estou perdido. eu não estou estagnado.
pela primeira vez na minha vida, eu sei exatamente onde eu estou.
estou no meio dos meus três canteiros de obra.
e a porra da construção não para nunca.