ong recanto quatro patas

sobre cachorros, orçamentos e a ilusão de que amor resolve alguma coisa

talvez seja impossível explicar daqui. de dentro do caos. você só percebe que era caos quando desce num aeroporto europeu e vê que cidade pode ser outra coisa. amsterdã. paris. lugares onde beleza não é acidente, é projeto. onde urbanismo não é cópia mal feita de algo que nunca vimos de perto.

eu passei a vida inteira num trajeto de 400km entre cidades de goiás. trecho que mal tem duplicação. neblina. verde. plantações. vazio. e no meio desse vazio, a gente tenta construir paris com cimento barato e boas intenções. falhamos. miseravelmente.

mas não é sobre arquitetura.

é sobre os cachorros caramelo que pintam cada rua dessa cidade. que ninguém vê. que o estranho nega que existem. "muitos cachorros? aqui não." mentira. ou cegueira seletiva. tanto faz.

desde pequeno eu reparei: homens e cães têm hábitos idênticos. você já viu cadela no cio? ela percorre quilômetros atrás do parceiro certo. é seguida por dezenas de machos. depois da cópula, ficam presos. literalmente. empatados. pênis travado na vagina. expostos. vulneráveis. esperando que a biologia libere.

a gente vê isso nas ruas que tentam imitar europa. nas esquinas. nos terrenos baldios. a cidade inteira testemunha e desvia o olhar.

tem gente que distribui afeto. que faz carinho. que posta foto. que segue o cachorro por quarteirões se achando bondosa. mas tocar um humano na rua? jamais. a gente escolhe onde depositar o amor baseado no que conforta, no que parece saudável aos nossos olhos. como imigrantes aprendem cedo: alguns sonhos não são pra você. alguns afetos têm limite de espécie.


eu venho tentando explicar pra autoridades a importância de políticas públicas para animais.

alguns têm discursos lindos. propõem leis. postam nas redes sociais. isso dá like. engajamento. eu faço isso também. num perfil que não é meu. no nome de alguém que nunca clicou em "configurações" mas aprendeu rápido a usar chat.

eu não sei se tenho propostas sólidas. não sei se minhas ações geram resultado. continuo mesmo assim. sem calcular. sem esperar retorno.

levantei uma bandeira silenciosa. uma luta inglória contra a avalanche de mídia pesada de quem ama cachorro porque é fofo. talvez seja burrice criticar quem quer ajudar sem sujar as mãos. quem quer se aproximar do abismo sem cair nele.

mas eu caí. e continuo caindo.

tenho falado com muita gente. sentado com chefe de gabinete. pregado em cada secretaria que visito.

as respostas são sempre as mesmas:

"animal não é como humano."  

ainda bem.

"não tem de onde tirar dinheiro. você quer tirar da saúde?"  

não. quero questionar por que servidor ganha 9 mil e a ong que cuida dos animais de mineiros há 15 anos recebe 9 mil. no mês. total.

9 mil reais não paga um procedimento completo num cão. não paga castração em escala. não paga ração. não paga nada.

mas paga a conta de luz da prefeitura por meia hora.


eu não sei o que estou fazendo.

não sei se isso importa.

mas toda vez que vejo um caramelo empatado no meio da rua, exposto, esperando que a biologia o liberte enquanto a cidade passa e finge que não vê...

eu continuo.

porque alguém tem que cair no abismo.

e eu já estou lá embaixo mesmo.


Rickover

O homem tem uma grande capacidade de esforço. Na verdade, é muito maior do que pensamos que poucos alcançam essa capacidade. Devemos valorizar a faculdade de saber o que devemos fazer e ter a vontade de fazê-lo. Saber é fácil; é fazer que é difícil. A questão crítica não é o que sabemos, mas o que fazemos com o que sabemos. O grande fim da vida não é o conhecimento, mas a ação. Acredito que é dever de cada um de nós agir como se o destino do mundo dependesse dele ... devemos viver para o futuro, não para o nosso próprio conforto ou sucesso.

--Almirante Rickover 

sobre robôs, portos e fios cortados

você disse que se sentia um robô que eu queria configurar. que eu usava skinner. engraçado. a minha leitura sempre foi outra: eu nunca quis te configurar. eu queria te atualizar. você mesma admitiu: o seu mundo é pequeno porque é confortável. você é estagnada. quem ama o estagnado, apodrece junto. eu tentei te puxar para o movimento. você chamou isso de controle. eu chamo de crescimento. a incompatibilidade estava aí: o meu software não roda em modo de espera.

e sobre ser o "porto seguro"... essa foi a despedida mais cruel que você poderia ter escrito. me chamar de porto seguro é a sua forma educada de dizer que eu sou a opção lógica, a opção saudável, a opção que você procura quando o caos do rômulo ou a adrenalina do jason te machucam. eu recuso esse cargo. eu não sou a sala de espera onde você se cura pra voltar pra guerra. um porto seguro serve para ancorar barcos. eu sou mar aberto. se você tem medo de navegar e prefere a sua "bolha de polaris", não culpe o oceano pela sua falta de bússola.

você diz que acredita fielmente que sou seu "eterno fio vermelho" e que "a gente sabe se encontrar". não. a gente sabia. isso não é uma promessa de amor, vitória. isso é uma reserva de mercado. você quer me deixar na prateleira, etiquetado como "disponível no futuro", para garantir que, se tudo der errado na sua vida de liberdade, o idiota vai estar lá.

hoje eu cortei o fio. não existe "momento certo" no futuro para quem não tem coragem no presente. a vida acontece agora. a lama é agora. a construção é agora. 

você escolheu a estagnação. o mundo pequeno. a fragilidade. é um direito seu. mas não espere que eu aplauda a sua covardia só porque você a escreveu com palavras bonitas e citou teorias psicológicas.

fique com o seu deserto. fique com a sua memória seletiva. fique com a certeza de que você foi amada por alguém que era grande demais para caber nessa sua caixa que você chama de vida.



a grande diferença e o final

A gente é tão diferente. Em tantas áreas da vida. Você é sempre ligado no 220, e eu sou muito estagnada. O meu mundo é pequeno pq ele é confortável pra mim. É cômodo estar no meu lugar. Eu não tenho grandes planos. Na verdade eu não tenho nenhum. A ideia da Alasca? É que eu criaria alguém pra ficar lado a lado comigo. A Alasca não precisa de um pai. Mas eu preciso dela. E se for pra viver minha bolha de Polaris, Alasca e eu, eu serei eternamente feliz. Eu não gosto de estar sozinha. Mas eu também não gosto e nem quero estar com alguém que eu não posso ser eu 100%. Eu quero alguém que eu possa ser boba, que eu possa ver meus filmes, que possa me ver suja de pinta pq eu finalmente voltei a pintar, que não se importe com a fotografia que eu tire e mostre pro mundo, que não ligue de ouvir as histórias dos livros que leio, que não ache ruim eu usar meia de bichinhos, que olhe pra mim e veja que eu sou frágil, fofa, que me enxergue, que saiba minhas coisas preferidas, entre outras mil coisas que eu poderia citar. Eu amo você, amo muito, e lutaria por você, mas a gente vale a pena? Tem momentos que eu vejo que você quer moldar tanto meu comportamento que eu sinto que skinner tava citando as teorias de modificação dele pra você. Me sinto um robô que você quer configurar. E eu tento te modificar também. Mas são personalidades tão diferentes que nenhum de nós dois vamos ceder. E meu Deus? Que obsessão bizarra é essa que a gente tem que simplesmente não consegue deixar o outro quieto? Não falo isso só da sua mensagem de ontem à noite, até pq quarta 21:21 eu te mandei mensagem tbm. Eu dirigiria todos os dias durante 4 horas pra passar 30 minutos com você e voltaria pra Goiânia. Eu teria uma filha contigo agora mesmo não tendo estabilizado nada na minha vida. Eu namoraria contigo agora mesmo sabendo que detesto distância. Mas isso tudo é imprudência. Eu tenho a fé na gente, tenho, aprendi a ter. Mas também acredito fielmente que você é meu eterno fio vermelho, e que quando for o momento certo, ele deixa de ser um fio longo e sem barreiras. 

O que eu preciso agora é entender que tá tudo bem eu ficar sozinha, e que eu não posso voltar pra você só pq você é Porto Seguro, é desumano da minha parte, pq eu não machuco só eu, eu tô machucando outra vida. 

Eu nunca odiei nada na vida, nunca. Ódio pra mim é um sentimento tão ruim e tão poderoso. Mas eu odeio que a vida não me deixe ficar com você, e por mais que a gente tente, não parece o correto, não agora. 

Então se for pra você seguir o que eu falar, eu falo com todo amor do mundo, segue sua vida. Vou seguir a minha. Eu nunca vou conseguir te apagar, você mudou a minha vida, você me salvou, você me amou. E eu te amei e amo com 100% do meu coração. Você é importante pra mim e sempre vai ser. O melhor autor que eu já li. A voz que eu mais gosto de ouvir. O melhor toque físico. O melhor quebra cabeça das peças espalhadas que eu chamo de vida. Eu amo você. Amo a Lily. Amo nós 3. Mas por enquanto, vamo se recompor, não ser tão quebrados um pro outro e causando ainda mais rachaduras. A vida com você vai ser boa, isso eu tenho certeza. Não posso ser egoísta e dizer pra você esperar por mim. Mas a gente sabe se encontrar. E a gente ainda vai. Eu te amo eternamente gatinho preto🖤🐈‍⬛

desculpe trazer o caos para sua vida (o arquivo final)

Você persiste em tentar me extinguir da sua memória, como se a minha existência pudesse ser tratada como uma mancha removível. Ainda assim, tem a ousadia, quase cínica de apontar o dedo em minha direção por eu ter cometido uma traição. Sim, eu traí. Não há orgulho algum nisso, tampouco desonra. É apenas um fato. E, sobretudo, não há arrependimento por ter ido ao encontro daquele Felipe.

O Felipe das telas é uma versão empobrecida, quase caricatural; ele se transfigura, oscila, some e reaparece conforme lhe convém. Curioso como a instabilidade sempre foi atribuída a mim, quando, ironicamente, o diagnóstico de bipolaridade é meu, e, mesmo assim, quem muda de face com mais frequência é você.

Sou, para você, reduzida a um blog, uma narrativa simplificada, recortada, distorcida, como se a minha complexidade pudesse caber em anotações superficiais. E, apesar disso, sou alvo de reprovação, tenho o dedo apontado à minha face pelo simples fato de não ter contado ao Rômulo sobre a traição. Mas, afinal, por quê? Para quê? Ele está à beira do próprio abismo, e eu já o havia alertado tantas vezes sobre isso.

Você não é a causa do término, de forma alguma. A verdade é mais amarga e menos heroica: não damos certo porque ele insiste em me colocar em um pedestal desproporcional, inalcançável, e eu não me reconheço ali. Rômulo é, sim, o homem perfeito, seria um excelente pai, um marido íntegro, um porto seguro. Mas lhe falta a adrenalina. E quem a possui, Vitória? O Jason tem.

E por que não estou com ele? Porque, apesar de tudo, ainda cultivo certa afeição pela minha própria vida. Há limites para o caos que sou capaz de abraçar.

E, então, surge a pergunta inevitável: quem é o Felipe nesse enredo? O Felipe é a parte obcecada. A face intensa, febril, que fascina e consome.

Hoje mesmo escrevi uma síntese cruel, mas verdadeira:

“O carinho e afeto do Rômulo

A adrenalina e proteção do Jason

O calor e obsessão do Felipe”

E, por mais que você tente me reduzir, me apagar ou me moralizar, estas são as camadas que me constituem, e que você nunca teve coragem de enxergar.

Eu poderia amar os três? Poderia, sim. Minha capacidade de sentir sempre foi vasta demais para caber em moldes convencionais, essa é a verdade que ninguém admite em voz alta. Mas, ainda assim, fui eliminando todos vocês aos poucos, como quem apaga velas em um quarto onde a claridade começa a doer.

Não por falta de afeto, mas por excesso de lucidez. Porque amar três homens por diferentes razões é uma heresia social, mas renunciar a cada um de vocês foi um sacrifício emocional silencioso, quase ritualístico.

Eu poderia ter permanecido com o carinho do Rômulo, com a adrenalina do Jason, com o calor do Felipe. Poderia viver em três intensidades simultâneas. Mas escolhi o deserto, porque a multiplicidade dos outros, quando mal compreendida, vira crime; e a complexidade da mulher que sente demais é sempre julgada como falha moral. Caótico foi ver os 3 pedindo pra voltar. E eu ignorar isso. 

E, no fim, é isso: não foi falta de amor. Foi excesso dele. E vocês nunca souberam o que fazer com isso. Enquanto vocês seguem suas vidas, eu tô jogada em um quarto que nem me encaixa mais, com os braços pintando sangue, e eu tentei lutar com isso com todas minhas forças. Agradeço pela Lily não vê isso, sei que me daria um lição de moral. Mas é essa a Vitória Gabriela, eu sou quebrada, e eu quebro quem tenta se aproximar.

uma vez nós existimos (o arquivo final)

eu não sei o que eu tinha na cabeça quando comecei este blog. talvez eu quisesse ser o sam altman. talvez eu quisesse apenas salvar dados antes que meu sistema corrompesse. mas a verdade, crua e não refatorada, é que você me acompanhou do primeiro post até este. o domínio dizia "felipe paulo", mas o conteúdo sempre foi "felipe e vitória". é justo que termine assim.

não é justo continuar escrevendo sobre um fantasma. não comigo. não com você.

eu parei a minha vida desde que te conheci. você disse: "eu tenho uma faculdade para terminar". e eu? eu não abri mais o vs code. eu não escrevi mais nenhuma linha de código. eu redirecionei todo o meu processamento, toda a minha capacidade de hardware, para rodar uma simulação onde nós damos certo. eu troquei a construção da minha carreira pela arquitetura de um "nós".

e eu sei exatamente onde a fundação cedeu. eu sou um homem de rachaduras. eu sempre acho que dois são mais fortes que um, mas esqueço que, se um dos pilares está podre, ele derruba o teto sobre o outro. eu sempre estrago as coisas. é o meu bug nativo.

mas houveram momentos em que o código rodou perfeito. eu sei exatamente o dia em que você viu um post sobre amar uma garotinha que nem é sua, e escreveu: "lily". naquele momento, você não seria a mãe dela. você seria algo que a gente escolheria, todos os dias. eu e a emily teríamos dado muito orgulho para você. nós teríamos sido a família que você nunca precisou pedir, mas que sempre mereceu.

hoje, o silêncio é ensurdecedor. eu ainda olho para o celular esperando a notificação. eu ainda alucino, com uma nitidez 4k, você abrindo a porta do carro e dizendo: "lipe, eu tô com você. pra sempre." eu enterrei a ideia de "merecer" alguém, mas essa esperança estúpida e ilógica recusa-se a morrer.

você me pediu para escrever algo bonito sobre você. aqui está a verdade: até a mavis foi cúmplice. aquela chave não sumiu por acaso. nada foi por acaso. eu fui ouvido. não por qualquer pessoa, mas por alguém com uma sensibilidade que não cabia em 1,52m.

você é humana. você chora, sorri e conta coisas totalmente desnecessárias. e eu amei cada bit dessa desnecessidade. você me leu de todas as formas possíveis. e eu amei ser lido, mesmo quando a análise doía.

o blog acaba aqui. eu queria ter mais palavras, mas as minhas já foram gastas tentando te segurar. agora, eu preciso voltar pro vs code. eu preciso voltar a colocar tijolo sobre tijolo, sozinho.

eu tenho certeza de que você vai fazer a diferença. o seu ciclo aqui encerrou, mas o seu impacto no meu core é permanente.

eu acho que a gente se vê por aí. talvez num café daqui a 15 anos, quando as cicatrizes forem apenas linhas de expressão. talvez em outra vida, quando formos apenas dois gatos um preto e um de sombra observando o mundo sem a necessidade de palavras.

eu te amei. como só alguém com uma dor pode amar.

[fim da transmissão]

por felipe.core, para o ator principal do próprio filme.

caros leitores,

eu pensei, apaguei, tantas vezes cada um desses textos. até tentei terceirizar um deles, mas falhei e apaguei. tinha que vir de dentro. tinha que ter alma. e a alma, vocês sabem, não é um lugar limpo. ela é a própria fórmula que rege o movimento.

1. a fórmula que conecta tudo: o caos ordenado

eu sou a criança que, desde pequena, vê padrões cravados nas coisas. na minha visão, é a mesma matéria que conecta tudo, literalmente. o movimento de um carro, a curva de um pássaro: é a mesma fórmula das palavras e dos números. o movimento tem palavras e números. é o máximo que posso usar para te explicar. essa fórmula me revela que tudo é caos (desordem alinhada), e essa desordem se manifesta de forma mais brutal nas interações humanas.

eu dou exemplos assim porque talvez exista em mim uma criança que vê em tudo os mesmos padrões-números. só muda a ordem no caos.

2. o observador e a anomalia: o atrapalhado no cemitério

eu sou o atrapalhado no cemitério. ele me acha um otário, com certeza. é um caso de diagnóstico óbvio para o mundo. mas não para mim. se você conversar com ele, vai observar os padrões que movem todas as pessoas. e a única coisa que importa é o movimento depois de saber disso. ele é uma anomalia em um sistema que busca o óbvio.

3. o monstrinho: uma estrela rara, um visitante de galáxias

certa vez, eu olhei para um céu cheio de estrelas, mas me recusava a aceitar que atrair uma estrela seria como escolher um prato em um menu. cada estrela era única. e a única coisa que me importava era o tempo que eu gastaria com ela, porque aprendi que algumas rosas são raras apenas porque as cativamos e dedicamos tempo.

em um grito de fé, avistei um céu cheio de estrelas. mas não pense que meu monstrinho veio de uma estrela qualquer. não, era uma daquelas que a gente sabe que pode existir pela quantidade de astros, mas nunca pensa que vai cruzar nossos caminhos.

naquele tempo, eu era um estrangeiro, um engenheiro de catedrais, que percorreu o mundo em busca de inspiração, recusando-me a acreditar que o mundo era apenas o que fui condicionado a ver. e em uma dessas viagens, entre verões e outonos (e ela, o inverno), eu a encontrei.

eu olhei tanto para uma estrela que ela me olhou de volta. o sol era forte, mas dava para sentir que não seria uma típica tarde de domingo. e como em um sonho, lá estava ela na minha frente: um monstrinho pequeno e belo, frágil. uma pequena gotinha de ingredientes do meu mundo poderia ser fatal para ela. não importa a cor.

ela também não falava meu idioma, parecia soar, mas como um disco arranhado, repetia sempre as mesmas frases:

"você sabia que quem come muita cenoura fica cor de cenoura?" "você sabia que borboletas se alimentam de lágrimas?" "você já ouviu sobre os dois pontinhos vermelhos? que eles sempre se encontram."

eram tantas perguntas que ela já aparentava saber. mas, em meu imediatismo, eu só via a chance de um "nós". eu nunca pude, ao certo, entender sua paranoia com palhaços, não com a mesma clareza que aqueles olhos cor de mel me decifravam. no começo, eu não acreditava que um monstrinho tão pequeno pudesse sentir como um humano. mas era, totalmente, possível.

4. a nave, a jarra e o medo de perdê-la

eu não consigo apagar a imagem de quando ela saía de sua estrela e caminhava até mim. uma visitante de um planeta tão longínquo, agora bem na minha frente. não trazia vestes, trazia apenas comida para um dia. ali, percebi que, mesmo que por enquanto, aquela criatura tão bela não vinha com o desejo de ficar em meu planeta. ela não pretendia queimar o veículo que a havia trazido até mim.

minha vontade era de colocá-la num pote e levá-la por aí, comigo, não importa onde eu fosse. mas parei, me lembrei: eu já havia tentado fazer isso com paris. talvez um demônio tão pequeno coubesse numa jarra, mas e o medo de perdê-la? eu não sei quantas vezes pensei nisso: que assim aquela coisinha seria minha para sempre, protegida de tantos agentes do meu mundo que poderiam tirá-la de mim. coisas que para nós eram nutritivas, para ela eram o maior veneno. o que nos fazia sorrir, para o monstrinho trazia apenas dor. o palhaço já não soava mais tão engraçado. a manga já havia perdido sua doçura.

ela era tão forte e tinha inúmeras cicatrizes que provavam isso. sua força sempre foi o que nos uniu. desde pequena, lutou contra monstros invisíveis, criaturas que se escondem atrás de máscaras. em seu planeta, nunca houveram mudanças além daquelas das quais não se orgulhavam. aquele tipo de lembrança que nunca manda um cartão postal no natal. tudo que era bom, ficava. eu não sei em quantas vezes pensei que poderia habitar aquele lugar, mesmo que sem algum tipo de convite, mesmo que por apenas alguns dias. obviamente, seria um ambiente novo e hostil, mas eu não teria medo de enfrentá-lo.

aos poucos, fui descobrindo que aquele monstrinho não tinha meu planeta como ponto final. ele não estava buscando um renascer; ele lutava por um florescer. meu mundo para ele não era único. era um tipo de criatura que vagava por galáxias em busca de uma que pudesse habitar. ele sabia as perguntas certas a fazer, mas por imaturidade, acreditava que desvendando os segredos de um planeta, acharia respostas às suas próprias perguntas. ele olhava e fazia testes, observando cada aspecto do meu planeta. ele foi moldado com inúmeros manuscritos que detalhavam como a vida se manifesta no universo. ele não se permitia deixar levar por aspectos da humanidade.

5. o abraço a três, a fuga e a navalha da realidade

com toda a calma que um furacão pode ter, eu apresentei meu planeta brevemente a ela. eu queria tanto que ela ficasse. talvez eu até tenha me perdido no meio do caminho, tanto que não sei ao certo até hoje o que eu signifiquei para ela.

em uma certa noite, a chuva caía tão forte. não éramos mais dois, éramos três.

com toda sua delicadeza, ela puxou de dentro de algo que mais parecia uma bolsa um caderno. ela tinha essa necessidade de entender as coisas, de entender o mundo. eu havia apresentado meu mundo como alguém que deseja que ela descobrisse uma nova galáxia. eu queria que ela soubesse que não estava mais sozinha. não mais. éramos, ali, três. eu dei a ela a chance de sentir nos olhos de uma criança um olhar materno, nos braços de um abraço a três.

mas ela puxou aquele caderno e, com o maior senso de bondade, passou a agir como se fôssemos um problema a ser resolvido. como se nossa estrutura fosse falha.

eu apresentei a ela, em dois dias, todo o meu mundo. para quem era apenas uma forasteira, que havia vindo de outras galáxias. mas eu deveria ter esperado, porque talvez ela não tenha vindo por escolha. talvez ela estivesse fugindo de outro igual a mim. levado por uma fé estúpida, não pude deixar de tentar. e eu apresentei esse novo mundo como a coisa mais incrível do mundo, a quem ainda estava queimando outro fogo que não era meu.

suas palavras eram lindas, repletas de promessas, sempre as mesmas. suas atitudes eram louváveis, afinal, havia viajado quilômetros na velocidade da luz para me encontrar. mas o que eu fui? um projeto de fuga? eu simplesmente não iria conseguir aceitar. e não aceitei. eu dei novamente o show completo.

eu teria forças para largar tudo agora e ir para sua galáxia? sem sombra alguma de dúvida. mas você me escolheria nesse cenário? eu tenho certeza de que não. eu, que já visitei inúmeras galáxias, naveguei por mares, visitei estrelas, estaria totalmente pronto para essa jornada. eu faria qualquer coisa para ir ou ficar com aquele monstrinho. em certo momento, ela questionou: "por que nunca pediu para eu ficar? logo eu que sempre pedi, em cada visita, para você ficar mais um pouco?"

tudo o que tive foi fuga. eu sempre fui um homem, tentando ser um homem. um daqueles que tem uma dor que todos no ambiente sentem, logo aquele que tentou recomeçar mais vezes do que ela poderia imaginar. um homem que nunca ficou em uma galáxia. um viciado em ruínas. um maluco. um dramático. por que você ficaria? talvez, desde o começo, eu sempre soubesse como essa história iria terminar.

e depois da sua viagem, depois do abraço, depois do pedido oficial que eu me culpei por não fazer... você decidiu me abandonar. decidiu dar um passo para trás. mesmo eu querendo que você ficasse. você decidiu partir, mas não como quem parte. partiu como quem deixa a porta entreaberta. não teve honra de ficar. não teve a coragem de deixar ir.

éramos iguais. ambos cometemos erros e prometemos não nos sacrificar por isso. mas até que ponto? até que ponto a dor de uma ausência compensa?

6. o grito de uma galáxia distante: o fardo do monstro real

e logo eu, que sou assombrado por um sistema lógico que eu mesmo criei. eu sabia exatamente como seria o comportamento do meu monstrinho assim que voltasse para o seu planeta. eu sabia. quais palavras usaria e como se comportaria, porque com ela, os comportamentos sempre se repetem.

eu certamente não fui o melhor parceiro do mundo e tive um dia para ser ele. não tenho mais nenhuma esperança real de que isso possa funcionar. mas assim como ela, eu estava sem força. acabamos nos comunicando por um sinal antigo, que às vezes demorava mais tempo do que deveria para as ondas de rádio cruzarem galáxias e me alcançarem.

mas de uma certeza eu tinha: monstrinhos nunca ficam sozinhos. e era questão de tempo até outra história igual começar.

enquanto escrevo no diário de bordo que ela esqueceu por aqui, sinto a dor de você não ter querido ficar. por você não ter lutado para ficar. hoje, disputo sua atenção com ondas de rádio, e a minha tende a oscilar aos finais de semana. era mais uma cruz que eu jamais poderia imaginar.

esse é um pedido de socorro. um grito de uma galáxia longínqua: "por que você não pode ficar?"

eu amei você. como só alguém que tem uma dor pode amar.

a resposta

[de Vitória Gabriela para Felipe Paulo. 29/10/2025]

sinceramente, acho que tenho que explicar como me sinto desde o começo.

desde que aprendi a pagar língua. pq eu falava “não vou entrar no tinder”, entrei. “não vou sair com ninguém do tinder”, sai. “não vou na casa de alguém que não conheço”, fui. “não vou ficar com alguém que já tem filho”, fiquei. “não vou amar de novo”, amei.

e você é um complô de contradições minhas.

eu amei alguém que parou pra me explicar a bíblia (minha mãe tem essa vontade a 23 anos e eu só comprei uma por sua causa). eu amei alguém que me fez assistir vivarium, mesmo sabendo que ia detestar e entrar em parafuso igual o maldito show de truman. eu me apaixonei pela filha de outra pessoa sem nem ao menos ter visto ela nem uma vez. eu amei uma gata que rouba chaves, que deita nos meus vestidos, e me deu mais afetos em algumas noites do que a minha própria gata kkk. eu amei alguém que fala mais do que tudo na vida, mas tá tudo bem, pq eu passaria horas e horas só ouvindo. eu amei alguém a ponto de pela primeira vez na vida quebrar tradições de um relacionamento pra falar com ele.

e sinceramente o romulo merece alguém muito melhor do que eu, ele é uma pessoa boa, juro que é, e eu me sinto um lixo de não conseguir alguém de novo.

e foi o maior inferno (e perdão o xingamento) ouvir você falar que me ama, mas não escolher e pedir pra eu ficar, ou melhor, você ficar.

muito se fala sobre eu abandonar, sobre eu ser o monstro e o abismo, entre mil coisas ditas e escritas. mas onde esteve sua coragem de ficar?

tem duas semanas que você se instalou na minha cabeça de novo. não sei se sonhei, se você matou uma galinha preta, colocou meu nome na boca do sapo, mas você tava fixo. eu lia oq vc escreveu todo dia. eu sei o dia que você reativou seu instagram. eu acho que sei de cor a rota pra mineiros pq eu simplesmente já arrumei mochila pra ir atrás de você, nem que eu mobilizasse pessoas pra me ajudar a te achar.

mas você nunca me quis, não pra ter rótulos. e a gente sabe que isso é bobeira. mas tem alguns casos que não são.

então esse b.o não é meu. esse filme não é meu. nunca foi.

você queria alguém que te amasse, que ficasse. eu fiz isso.

talvez esse filme não seja nosso. talvez não vamos ser nada um dia. talvez essa seja a última vez que a gente se fala. talvez eu nunca mais leia o que você escreva.

tudo é um talvez. mas a certeza que eu tenho é que você vale a pena. e eu sou muito grata por ter te amado.


halloween de fibra ótica

fantasmas só reaparecem quando você, propositalmente, deixa as janelas abertas.

cabe a nós, então, narrar mais um capítulo desse filme que insiste em não ter fim. um show de truman re-renderizado, e dessa vez, o loop veio através de fibra ótica. textos. áudios. e mais um artigo para um blog que, supostamente, ninguém lê.

eu sempre fui fascinado pelo conto de jack e sally. e naquele halloween de 31/10/2025, ela resolveu aparecer.

como uma lenda antiga. o meu monstrinho de 1.52.

a história não poderia ser diferente. ela veio atraída por um "gato preto" – uma imagem que para ela era familiar. quase uma velha conhecida.


escutei você dizer algo como:

"como um gato preto ganhou tanto brilho em uma cidade do interior."

ela não faz ideia do peso que essa frase carrega. não foi uma observação. foi um grito. um manifesto. a chave de um sistema que ela ajudou a construir e abandonou.


e o engenheiro em mim não pôde deixar de calcular: tudo está bem no relacionamento com o popstar de barbearia?

logo eu. que vivo com medo de te perder para um abacaxi. talvez uma manga. acho que rock stars genéricos nunca ofertaram tanto risco assim.

uma sally precisa ter uma vida enquanto seus jacks estão vagando em algo entre o céu e o inferno. é a regra.

mas em alguns halloweens, eles se encontram. mesmo que seja através de uma fibra rígida, gelada, que só transmite dados, nunca calor.


eu entendo o seu medo.

o medo de parecer profundo e acabar dissecado em uma história de blog. em uma plataforma que promete durar pela eternidade.

o medo de ser chamada de abismo. talvez daquela com o sorriso envenenado.

eu tentei não pensar naquela foto. tentei não pensar na cabana que você sempre sonhou, ou em alguém que um dia prometeu ser o "porto seguro".

esta cidade sempre pareceu um lar para criaturas da noite. tínhamos a história de halloween perfeita.

ela voltou como uma ideia antiga. talvez até nossa. um fork abandonado. um desejo de voltar para uma arquitetura que um dia lhe foi compartilhada. ela sabia exatamente o que dizer.


monstros existem. eles só mudam de mídia.

a minha vontade era de rodar por 425km. (o engenheiro calculou o tempo exato). pegar naquelas maozinhas e trazer mais uma criatura da noite para o lugar que "traz cor" para monstrinhos.

funcionou com a gata. por que com você seria diferente?

mas são escolhas. algumas se jogam e dão tudo para viver uma vida simples no meio de lugar nenhum. outras te levam para as mãos de uma banda de rock.

e o caos é sempre a constante, não é? um velho amigo que insiste em não te abandonar.

arquitetos de pântanos têm dessas. tendem a oferecer o ecossistema inteiro, para quem só queria um show de abertura.

foi muito bom te "ver" naquele halloween. não poderia ter sido em outra data.

a fé e a ferida (ou: conversas com o vazio)

eu te chamei pelo nome, naquela noite sob a figueira imaginária. um pedido mudo, talvez. uma tentativa de conexão com algo maior que essa confusão aqui dentro. eu acredito. ou quero acreditar. essa fé recém-descoberta, ou redescoberta, talvez seja a coisa mais sólida que eu tenho agora.

penso em você lendo os profetas. jeremias, com seu lamento, mas você não reclamou, né? você só... fez. mudou a porra do jogo. vejo isaías, a visão transcendente, e imagino o orgulho silencioso. daniel na cova dos leões, talvez você estivesse lá, não lutando contra as feras, mas observando o colapso dos impérios, esperando a próxima refeição. vejo paulo, pedro, joão... mas aí me irrito. talvez seja mais fácil te encontrar nos provérbios antigos, na sabedoria crua que existia antes mesmo dos nomes serem escritos. nas visões que te pintaram melhor que qualquer testemunha ocular.

fé. e dor. parece que andam juntas, né?

como pode? vi um documentário hoje. gente vivendo com dor crônica, daquelas que a gente nem imagina. desde criança, às vezes. outras, chega de surpresa na velhice. mas é a mesma dor, no fundo? aquela que mói, que consome, que vira a única constante. falam que a dor edifica. talvez. você carregou madeira, espinhos. virou símbolo. mas a dor de uma criança de quatro anos, que mal sabe o nome das coisas? onde tá a edificação nisso?

aí me olho no espelho. não lembro de um dia sem ela. a dor. não a física, essa vai e vem, some com remédio, some com o tempo. falo da outra. a que mora no peito, invisível. cortante. às vezes nasce aqui dentro, às vezes vem de fora, trazida por um olhar, uma palavra, um silêncio. às vezes é só o gosto amargo do arrependimento pelas dores que causei. mas tá sempre aqui. uma presença constante. intensa.

qual o tamanho disso? como se mede? perder um braço dói mais que perder um amor? a gente esquece a dor do coração partido quando a perna tá sangrando? não sei. nunca vi ninguém no leito de hospital pensando na ex. nem ninguém esquecendo a dor da perda lembrando que podia ser pior. a dor parece absoluta. intransferível.

e a fé? onde ela entra nisso?

às vezes acho que a dor é bipolar, vai do inferno ao céu nublado e volta. mas a fé... ela só é. tá ali. quieta. não se mede em idas à igreja ou em dízimos pagos. talvez esteja mais na velha que cuida dos cachorros da rua do que no pastor que grita do púlpito. quem sabe? não dá pra quantificar. não tem régua pra isso.

dizem que um grão de mostarda move montanhas. talvez um segundo de fé genuína seja o suficiente. um instante de clareza, de conexão com algo maior, com a porra do propósito que a gente busca. é uma estrada, talvez. uma só, mas larga pra caralho, cheia de atalhos e desvios. cada um pega o trecho que consegue. um minuto, uma vida. tanto faz. você não planta pequi esperando colher pamonha. a semente da fé, acho, já vem com a gente. a gente só escolhe se rega ou não.

e eu? me vejo aqui, preso numa fé estranha. uma fé sem ação. paralisado por uma guerra que nem comecei, um monstro herdado. esperando.

mas aí que tá. a fé, mesmo essa capenga, me diz que não é só espera. é construção. cada dia que eu levanto, cada linha de código que eu escrevo, cada página que eu leio, cada vez que eu respiro fundo e não mando tudo pra merda... é um tijolo. um pequeno ato de fé na porra da obra.

e talvez um dia, num segundo qualquer, sem aviso, essa catedral interna fique pronta. talvez só por um instante. e nesse instante, o mundo veja. não a dor, não as ruínas, não o processo fodido. mas a porra da fé que, apesar de tudo, construiu alguma coisa.

um segundo. às vezes, é tudo que a gente precisa.