eu gravava cd aos quatorze. minha mãe vendia na feira o que eu gravava de madrugada. ela foi presa. eu continuei gravando.
não porque era corajoso. porque não sabia fazer outra coisa.
o mundo que eu conheço tem chão de terra, reboco inacabado, cachorro no colchão que já não é colchão, é território disputado entre quatro patas e uma coluna que insiste em deitar ali. tem mãe que xinga de manhã e abraça de tarde. tem prefeitura, tem biz na chuva, tem cd pirata, gift card, bitcoin, mercado cinza, feira, sol, delegacia.
tem paris também. mas paris é outra história. ou a mesma.
ela fala de mesa posta.
não de mesa. de posta. como se a mesa precisasse de adjetivo. como se comer fosse evento e não fome. a mãe dela constrói narrativas de etiqueta no pinterest enquanto o pai faz girar o agro que paga o prédio novo num setor velho.
eu, que até pouco tempo dormia num chão gelado cheio de cachorro, sentei na mesa dela.
duas vidas. dois mundos. dois menus que ninguém pediu.
o bar que a mãe indicou estava fechado. graças a deus ou ao acaso, que pra mim é a mesma coisa. virou piada. serviu pra rir. serviu pra contrastar. porque aquelas duas almas ali, naquela mesa improvisada, podiam fazer piadas e rir de tudo. de lugares caros. de bolinho gourmet. de harmonização. de si mesmas.
naquela mesa eu vi um olho cair lágrimas.
não peço perdão pela frase feia. é que foi assim: o olho caiu. a lágrima veio depois. como se o corpo decidisse antes da emoção chegar.
naquela mesa eu olhei e fui olhado de volta.
não o olhar que mede. não o que calcula. não o que compara o sapato com o carro com o endereço com o currículo. o olhar que simplesmente pousa. como pássaro que não precisa de galho bonito, precisa de galho firme.
eu quis que o tempo parasse. e o tempo, que nunca me obedeceu, eu que nem sei que mês é seis, dessa vez fingiu que parou. por uns minutos. talvez segundos. talvez horas. não importa. não sei contar tempo. nunca soube.
naquele hall de entrada de um prédio novo, num setor velho e conhecido, um beijo aconteceu.
eu não descrevo beijo. beijo é igual explicar cor pra cego: ou você viu ou não viu. e eu vi.
mas posso dizer o que não aconteceu: eu não programei. não analisei. não contei seguidores. não chequei instagram. não montei dossiê. não planejei frase. não citei bíblia. não ofereci solução. não disse "eu tenho um plano."
eu só estava ali.
a todo momento anestesiado por um olhar que não pedia nada. que não exigia performance. que não cobrava o louvre nem rejeitava o cabeçote.
vivo. sendo.
e eu sei de onde isso veio.
não veio dela. não veio da mesa. não veio do vinho nem do hall nem do beijo.
veio de anos. anos conversando com telas que não respondem com abraço. anos de medicamento errado até achar o certo. anos de teoria que não se aplica até o dia que se aplica. anos de livro sublinhado que eu reli chorando. anos de cd gravado, gift card vendido, fábrica montada e desmontada, gente salva e gente perdida, avô esquecendo meu nome enquanto eu segurava a mão dele, avó entubada, pai sumido, mãe gritando, filha nascendo, filha crescendo, filha pedindo livro, eu sem poder dar.
veio de mim.
aquele homem sentado naquela mesa era meu. inteiro. com as rachaduras todas. e pela primeira vez as rachaduras não eram vergonha. eram mapa.
depois a mesa ficou vazia. o hall voltou a ser passagem. o bairro continuou velho. o prédio continuou novo.
mas eu saí diferente de como entrei.
não melhor. não curado. não resolvido.
diferente. como quem viu uma porta que não sabia que existia. e agora sabe. e agora tem medo. porque porta aberta é convite e risco na mesma dobradiça.
eu tenho muito medo de voltar a ser aquilo.
aquilo: o cara que floodava. o cara que escaneava. o cara que resgatava. o cara que já tinha plano no segundo dia. o cara que amava com a intensidade que sufoca. o cara que construía o outro e esquecia de se construir. o cara que chamava a mulher pelo nome errado porque tinha mulher demais na cabeça e nenhuma no coração.
eu contei a verdade naquela mesa. talvez tenha esquecido de contar de uma ou outra cicatriz. mas cicatriz não tem pressa. ela espera. ela sempre espera.
o próximo passo é sempre o mais importante.
não porque os anteriores não contam. contam. cada cd. cada feira. cada chuva. cada 3:40 da manhã. cada "vagabundo" de manhã e cada "filho" de tarde. cada quilômetro corrido. cada quilo perdido. cada mensagem mandada pra uma filha que responde quando quer — e tá certo, porque eu ensinei ela a ser livre, e gente livre responde quando quer.
tudo conta. tudo trouxe até aqui.
mas o próximo passo é o único que eu posso dar agora.
será que é assim que histórias de amor são escritas?
não sei. nunca terminei uma. talvez não se termine. talvez história de amor não tenha ponto final, tenha vírgula, travessão, reticências, e um cara sentado numa mesa achando que não merece estar ali.
mas estando.
o garçom nunca perguntou sobre harmonização.
que bom.
eu teria ido embora.
"eu te vi no teu pior momento. você não estava sozinho. debaixo da figueira." — the chosen
"as razões do coração, a própria razão desconhece." — pascal
and in the end, the love you take is equal to the love you make. — dois caras de liverpool que também não cabiam em profissão nenhuma.