caros leitores,
eu pensei, apaguei, tantas vezes cada um desses textos. até tentei terceirizar um deles, mas falhei e apaguei. tinha que vir de dentro. tinha que ter alma. e a alma, vocês sabem, não é um lugar limpo. ela é a própria fórmula que rege o movimento.
1. a fórmula que conecta tudo: o caos ordenado
eu sou a criança que, desde pequena, vê padrões cravados nas coisas. na minha visão, é a mesma matéria que conecta tudo, literalmente. o movimento de um carro, a curva de um pássaro: é a mesma fórmula das palavras e dos números. o movimento tem palavras e números. é o máximo que posso usar para te explicar. essa fórmula me revela que tudo é caos (desordem alinhada), e essa desordem se manifesta de forma mais brutal nas interações humanas.
eu dou exemplos assim porque talvez exista em mim uma criança que vê em tudo os mesmos padrões-números. só muda a ordem no caos.
2. o observador e a anomalia: o atrapalhado no cemitério
eu sou o atrapalhado no cemitério. ele me acha um otário, com certeza. é um caso de diagnóstico óbvio para o mundo. mas não para mim. se você conversar com ele, vai observar os padrões que movem todas as pessoas. e a única coisa que importa é o movimento depois de saber disso. ele é uma anomalia em um sistema que busca o óbvio.
3. o monstrinho: uma estrela rara, um visitante de galáxias
certa vez, eu olhei para um céu cheio de estrelas, mas me recusava a aceitar que atrair uma estrela seria como escolher um prato em um menu. cada estrela era única. e a única coisa que me importava era o tempo que eu gastaria com ela, porque aprendi que algumas rosas são raras apenas porque as cativamos e dedicamos tempo.
em um grito de fé, avistei um céu cheio de estrelas. mas não pense que meu monstrinho veio de uma estrela qualquer. não, era uma daquelas que a gente sabe que pode existir pela quantidade de astros, mas nunca pensa que vai cruzar nossos caminhos.
naquele tempo, eu era um estrangeiro, um engenheiro de catedrais, que percorreu o mundo em busca de inspiração, recusando-me a acreditar que o mundo era apenas o que fui condicionado a ver. e em uma dessas viagens, entre verões e outonos (e ela, o inverno), eu a encontrei.
eu olhei tanto para uma estrela que ela me olhou de volta. o sol era forte, mas dava para sentir que não seria uma típica tarde de domingo. e como em um sonho, lá estava ela na minha frente: um monstrinho pequeno e belo, frágil. uma pequena gotinha de ingredientes do meu mundo poderia ser fatal para ela. não importa a cor.
ela também não falava meu idioma, parecia soar, mas como um disco arranhado, repetia sempre as mesmas frases:
"você sabia que quem come muita cenoura fica cor de cenoura?" "você sabia que borboletas se alimentam de lágrimas?" "você já ouviu sobre os dois pontinhos vermelhos? que eles sempre se encontram."
eram tantas perguntas que ela já aparentava saber. mas, em meu imediatismo, eu só via a chance de um "nós". eu nunca pude, ao certo, entender sua paranoia com palhaços, não com a mesma clareza que aqueles olhos cor de mel me decifravam. no começo, eu não acreditava que um monstrinho tão pequeno pudesse sentir como um humano. mas era, totalmente, possível.
4. a nave, a jarra e o medo de perdê-la
eu não consigo apagar a imagem de quando ela saía de sua estrela e caminhava até mim. uma visitante de um planeta tão longínquo, agora bem na minha frente. não trazia vestes, trazia apenas comida para um dia. ali, percebi que, mesmo que por enquanto, aquela criatura tão bela não vinha com o desejo de ficar em meu planeta. ela não pretendia queimar o veículo que a havia trazido até mim.
minha vontade era de colocá-la num pote e levá-la por aí, comigo, não importa onde eu fosse. mas parei, me lembrei: eu já havia tentado fazer isso com paris. talvez um demônio tão pequeno coubesse numa jarra, mas e o medo de perdê-la? eu não sei quantas vezes pensei nisso: que assim aquela coisinha seria minha para sempre, protegida de tantos agentes do meu mundo que poderiam tirá-la de mim. coisas que para nós eram nutritivas, para ela eram o maior veneno. o que nos fazia sorrir, para o monstrinho trazia apenas dor. o palhaço já não soava mais tão engraçado. a manga já havia perdido sua doçura.
ela era tão forte e tinha inúmeras cicatrizes que provavam isso. sua força sempre foi o que nos uniu. desde pequena, lutou contra monstros invisíveis, criaturas que se escondem atrás de máscaras. em seu planeta, nunca houveram mudanças além daquelas das quais não se orgulhavam. aquele tipo de lembrança que nunca manda um cartão postal no natal. tudo que era bom, ficava. eu não sei em quantas vezes pensei que poderia habitar aquele lugar, mesmo que sem algum tipo de convite, mesmo que por apenas alguns dias. obviamente, seria um ambiente novo e hostil, mas eu não teria medo de enfrentá-lo.
aos poucos, fui descobrindo que aquele monstrinho não tinha meu planeta como ponto final. ele não estava buscando um renascer; ele lutava por um florescer. meu mundo para ele não era único. era um tipo de criatura que vagava por galáxias em busca de uma que pudesse habitar. ele sabia as perguntas certas a fazer, mas por imaturidade, acreditava que desvendando os segredos de um planeta, acharia respostas às suas próprias perguntas. ele olhava e fazia testes, observando cada aspecto do meu planeta. ele foi moldado com inúmeros manuscritos que detalhavam como a vida se manifesta no universo. ele não se permitia deixar levar por aspectos da humanidade.
5. o abraço a três, a fuga e a navalha da realidade
com toda a calma que um furacão pode ter, eu apresentei meu planeta brevemente a ela. eu queria tanto que ela ficasse. talvez eu até tenha me perdido no meio do caminho, tanto que não sei ao certo até hoje o que eu signifiquei para ela.
em uma certa noite, a chuva caía tão forte. não éramos mais dois, éramos três.
com toda sua delicadeza, ela puxou de dentro de algo que mais parecia uma bolsa um caderno. ela tinha essa necessidade de entender as coisas, de entender o mundo. eu havia apresentado meu mundo como alguém que deseja que ela descobrisse uma nova galáxia. eu queria que ela soubesse que não estava mais sozinha. não mais. éramos, ali, três. eu dei a ela a chance de sentir nos olhos de uma criança um olhar materno, nos braços de um abraço a três.
mas ela puxou aquele caderno e, com o maior senso de bondade, passou a agir como se fôssemos um problema a ser resolvido. como se nossa estrutura fosse falha.
eu apresentei a ela, em dois dias, todo o meu mundo. para quem era apenas uma forasteira, que havia vindo de outras galáxias. mas eu deveria ter esperado, porque talvez ela não tenha vindo por escolha. talvez ela estivesse fugindo de outro igual a mim. levado por uma fé estúpida, não pude deixar de tentar. e eu apresentei esse novo mundo como a coisa mais incrível do mundo, a quem ainda estava queimando outro fogo que não era meu.
suas palavras eram lindas, repletas de promessas, sempre as mesmas. suas atitudes eram louváveis, afinal, havia viajado quilômetros na velocidade da luz para me encontrar. mas o que eu fui? um projeto de fuga? eu simplesmente não iria conseguir aceitar. e não aceitei. eu dei novamente o show completo.
eu teria forças para largar tudo agora e ir para sua galáxia? sem sombra alguma de dúvida. mas você me escolheria nesse cenário? eu tenho certeza de que não. eu, que já visitei inúmeras galáxias, naveguei por mares, visitei estrelas, estaria totalmente pronto para essa jornada. eu faria qualquer coisa para ir ou ficar com aquele monstrinho. em certo momento, ela questionou: "por que nunca pediu para eu ficar? logo eu que sempre pedi, em cada visita, para você ficar mais um pouco?"
tudo o que tive foi fuga. eu sempre fui um homem, tentando ser um homem. um daqueles que tem uma dor que todos no ambiente sentem, logo aquele que tentou recomeçar mais vezes do que ela poderia imaginar. um homem que nunca ficou em uma galáxia. um viciado em ruínas. um maluco. um dramático. por que você ficaria? talvez, desde o começo, eu sempre soubesse como essa história iria terminar.
e depois da sua viagem, depois do abraço, depois do pedido oficial que eu me culpei por não fazer... você decidiu me abandonar. decidiu dar um passo para trás. mesmo eu querendo que você ficasse. você decidiu partir, mas não como quem parte. partiu como quem deixa a porta entreaberta. não teve honra de ficar. não teve a coragem de deixar ir.
éramos iguais. ambos cometemos erros e prometemos não nos sacrificar por isso. mas até que ponto? até que ponto a dor de uma ausência compensa?
6. o grito de uma galáxia distante: o fardo do monstro real
e logo eu, que sou assombrado por um sistema lógico que eu mesmo criei. eu sabia exatamente como seria o comportamento do meu monstrinho assim que voltasse para o seu planeta. eu sabia. quais palavras usaria e como se comportaria, porque com ela, os comportamentos sempre se repetem.
eu certamente não fui o melhor parceiro do mundo e tive um dia para ser ele. não tenho mais nenhuma esperança real de que isso possa funcionar. mas assim como ela, eu estava sem força. acabamos nos comunicando por um sinal antigo, que às vezes demorava mais tempo do que deveria para as ondas de rádio cruzarem galáxias e me alcançarem.
mas de uma certeza eu tinha: monstrinhos nunca ficam sozinhos. e era questão de tempo até outra história igual começar.
enquanto escrevo no diário de bordo que ela esqueceu por aqui, sinto a dor de você não ter querido ficar. por você não ter lutado para ficar. hoje, disputo sua atenção com ondas de rádio, e a minha tende a oscilar aos finais de semana. era mais uma cruz que eu jamais poderia imaginar.
esse é um pedido de socorro. um grito de uma galáxia longínqua: "por que você não pode ficar?"
eu amei você. como só alguém que tem uma dor pode amar.