a fé e a ferida (ou: conversas com o vazio)

eu te chamei pelo nome, naquela noite sob a figueira imaginária. um pedido mudo, talvez. uma tentativa de conexão com algo maior que essa confusão aqui dentro. eu acredito. ou quero acreditar. essa fé recém-descoberta, ou redescoberta, talvez seja a coisa mais sólida que eu tenho agora.

penso em você lendo os profetas. jeremias, com seu lamento, mas você não reclamou, né? você só... fez. mudou a porra do jogo. vejo isaías, a visão transcendente, e imagino o orgulho silencioso. daniel na cova dos leões, talvez você estivesse lá, não lutando contra as feras, mas observando o colapso dos impérios, esperando a próxima refeição. vejo paulo, pedro, joão... mas aí me irrito. talvez seja mais fácil te encontrar nos provérbios antigos, na sabedoria crua que existia antes mesmo dos nomes serem escritos. nas visões que te pintaram melhor que qualquer testemunha ocular.

fé. e dor. parece que andam juntas, né?

como pode? vi um documentário hoje. gente vivendo com dor crônica, daquelas que a gente nem imagina. desde criança, às vezes. outras, chega de surpresa na velhice. mas é a mesma dor, no fundo? aquela que mói, que consome, que vira a única constante. falam que a dor edifica. talvez. você carregou madeira, espinhos. virou símbolo. mas a dor de uma criança de quatro anos, que mal sabe o nome das coisas? onde tá a edificação nisso?

aí me olho no espelho. não lembro de um dia sem ela. a dor. não a física, essa vai e vem, some com remédio, some com o tempo. falo da outra. a que mora no peito, invisível. cortante. às vezes nasce aqui dentro, às vezes vem de fora, trazida por um olhar, uma palavra, um silêncio. às vezes é só o gosto amargo do arrependimento pelas dores que causei. mas tá sempre aqui. uma presença constante. intensa.

qual o tamanho disso? como se mede? perder um braço dói mais que perder um amor? a gente esquece a dor do coração partido quando a perna tá sangrando? não sei. nunca vi ninguém no leito de hospital pensando na ex. nem ninguém esquecendo a dor da perda lembrando que podia ser pior. a dor parece absoluta. intransferível.

e a fé? onde ela entra nisso?

às vezes acho que a dor é bipolar, vai do inferno ao céu nublado e volta. mas a fé... ela só é. tá ali. quieta. não se mede em idas à igreja ou em dízimos pagos. talvez esteja mais na velha que cuida dos cachorros da rua do que no pastor que grita do púlpito. quem sabe? não dá pra quantificar. não tem régua pra isso.

dizem que um grão de mostarda move montanhas. talvez um segundo de fé genuína seja o suficiente. um instante de clareza, de conexão com algo maior, com a porra do propósito que a gente busca. é uma estrada, talvez. uma só, mas larga pra caralho, cheia de atalhos e desvios. cada um pega o trecho que consegue. um minuto, uma vida. tanto faz. você não planta pequi esperando colher pamonha. a semente da fé, acho, já vem com a gente. a gente só escolhe se rega ou não.

e eu? me vejo aqui, preso numa fé estranha. uma fé sem ação. paralisado por uma guerra que nem comecei, um monstro herdado. esperando.

mas aí que tá. a fé, mesmo essa capenga, me diz que não é só espera. é construção. cada dia que eu levanto, cada linha de código que eu escrevo, cada página que eu leio, cada vez que eu respiro fundo e não mando tudo pra merda... é um tijolo. um pequeno ato de fé na porra da obra.

e talvez um dia, num segundo qualquer, sem aviso, essa catedral interna fique pronta. talvez só por um instante. e nesse instante, o mundo veja. não a dor, não as ruínas, não o processo fodido. mas a porra da fé que, apesar de tudo, construiu alguma coisa.

um segundo. às vezes, é tudo que a gente precisa.