a indisposição

um ensaio sobre o mais ou menos que a gente aceita nos relacionamentos



é ridículo quando a gente tenta escrever ou descrever esse sentimento. quantos artigos, livros foram escritos sobre esse tema? eu acredito que realmente foram inúmeros

quando pensamos em textos vivos não podemos deixar de sentir coisas do tipo: "como isso vai tocar quem lê?" é um cuidado excessivo que beira a paranoia. e sabemos que textos assim — os que nascem preocupados demais com o outro — morrem antes de respirar



num tempo onde os celulares não existiam parecia sobrar tanto tempo. tempo de correr. tempo de jogar futebol. tempo pra contemplar um poste na rua e descobrir que postes podem ter nomes

postes podem ter dezenas de fios entrelaçados, como que muita coisa que funciona pode estar um tanto entrelaçada entre aqueles fios. um poste. uma fibra. num desses como o de número D-727 pode passar todo o tráfego da américa latina, um poste. fibras. fios. energia. pulso. se acertado por um caminhão poderia deixar metade do brasil sem conexão por horas

já o D-727 foi familiar a minha vida toda, num bairro antigo e vazio. sem novidades. apenas recentemente descobri que ele tinha nome. e talvez um daqueles aleatórios ou sequenciais. mais um instalador funcional do caos passando fibras por postes. fiquei feliz que ele resolveu dar um nome. um número

as redes G vieram para solucionar o problema. só que diferente do D, o G trouxe um tipo de caos invisível. que não se vê, mas cobra um preço alto. a vida tenta imitar ou ele imitou a vida? a indisposição de rede passou a não ser física, não se materializou mais. só existia pra quem criava ou pra quem era impactado por ela

indisposição, essa é a parte que me faz brilhar o olho. a que me gera vontade de enviar pra pessoa que eu amo e dizer: "leia esse texto". não importa o autor. se fui eu, se foi uma máquina ou um autor que morrera pobre anos atrás em londres

apenas leia

ele pode ser útil

ele pode transformar a nossa relação

será?

não sei



em 2026 modelos de IA tornaram as palavras obsoletas. frases vazias. afinal de contas se uma máquina traduz palavras com mais precisão do que qualquer romancista, o que a palavra pode ser? será que mudou de significado? ou não tem mais nenhum significado além do que a simples palavra poderia ter

um pulso toma conta de cidades e sociedades. um daqueles silenciosos

as pessoas arrumaram tantas desculpas, sim, aquela palavra que nitidamente preserva seu significado tanto para homens ou máquinas. aquela que se não está a frente, está ao lado de alguma justificativa. para cada escolha uma deixa de existir

se estudo demais, preciso de uma desculpa pra família

se descanso muito, preciso de uma justificativa para o trabalho

é um ciclo infinito onde palavras não variam. desculpa é desculpável. justificativa é sempre justificável

é como uma balança cega onde se você tira de um lado, ela pende pro outro



não nomear isso pode te gerar alguns problemas, principalmente se você está conhecendo alguém. múltiplos pesos. múltiplos encaixes

eu passei a vida toda escrevendo até o meio da página. achando que ser completo era uma conquista encontrada ao vencer a intensidade que lutava do outro lado

eu não sabia me expressar, explicar, respirar, porque eu sempre tive apenas até o meio da página

era porque até o meio da página o texto fica mais estético?

uma lição de matemática escrita até o meio da página soa como poesia?

não sei. comecei a pouco tempo a escrever até o final dela. demorei 32 anos pra chegar no verso. e descobri o sentimento que era escrever até a última página


eu troquei até o meio da página
por uma página inteira

intensidade não foi renomeada
mas passou a estar na mesma linha
de completude




escolhas mudam rápido. hoje ama, amanhã troca. hoje é segunda, pra alguém é o dia que veio depois do domingo

eu odeio domingos



um convite

A: podemos nos ver hoje?

B: não sei. tenho que ver.

A: ver o quê? já não viu o suficiente?

B: não sei. eu to confusa. eu vi?

A: a gente vamos estar juntos?

B: não sei, vamos?

A: eu te chamei. vamos?

B: não sei. achei que você me entendesse.

A: entendesse o quê?

B: não sei. estou ocupada com algumas coisas pra poder explicar agora

A: tudo bem. amanhã é domingo. segunda ninguém sabe mais o que será.

B: acho que já li isso em algum lugar.

A: não sei. quando eu chamei você nunca esteve lá.

eu poderia listar os melhores mais ou menos. eu também tive que ser em muita coisa e por muito tempo

ganhei mais ou menos dinheiro

fui um pai mais ou menos bom

paguei mais ou menos algumas contas

tenho mais ou menos alguém

minha vida foi por sua inteiridade quase que absoluta mais ou menos

não me perdi numa fé mais ou menos

não busquei no amor de uma mulher um batimento mais ou menos

olhei pros lados e vi igrejas mais ou menos. relacionamentos mais ou menos



a gente foi programado biologicamente pra ter um parceiro. um homem a proteção? ela a geradora de vida?

o que eu sei é que seu parceiro diz mais sobre sua fé, filhos, ou vidas mais ou menos do que qualquer palavra

mais ou menos. tempo. desculpas. justificativas

achamos a frase? sim

as variações? são sempre as mesmas

tempo > justificativas

mais ou menos > desculpas

justificativas > tempo
é um paradoxo que se replica como o infinito

é rápido. não demanda escolhas ou reflexão

um parceiro pode ser excelente, mas ele demanda tempo e muitas desculpas pra organizar o capital suficiente pra relação acontecer

outro tem justificativas demais pra se manter afastado



a indisposição é a escolha que não se nomeia. é o espaço entre o sim e o talvez onde a maioria dos relacionamentos mora. ninguém diz "estou indisposto pra você". diz que está ocupado. que precisa pensar. que não sabe. que viu isso em algum lugar

o D-727 existe há décadas ali, parado. levando pulso pra metade de um país sem que ninguém soubesse o nome dele. sem que ninguém olhasse pra cima

a gente faz a mesma coisa com as pessoas

passa fibra, passa energia, passa pulso — e nunca para pra dar um nome ao que sustenta tudo

até o dia que um caminhão acerta