a máquina do tempo

hoje eu entrei numa máquina do tempo.

o calor parecia beirar os 200 graus, e eu não tô falando só do clima. era o calor da forja. a forja que me moldou, e que hoje, decidiu me testar de novo.

uma vez eu li que alguns homens escrevem para não morrer.
talvez seja o meu caso.
tudo vira poesia. até a porra da lama.


o evangelho do bastardo.

eu me encontro no mesmo lugar de sempre. o recomeço. o loop.
a noite caiu. o lar perfeito para as criaturas que se alimentam da noite.
e eu escutei a mesma canção de ninar que me embalou a vida inteira.

"você é um bastardo. igual seu pai, um vagabundo. só quer meu dinheiro. eu vou cuidar bem pra não te ajudar, porque você é pior do que ele."

e na velocidade de um por do sol, o script muda.
a mesma voz: "quero te ajudar tanto nessa vida. você é tão inteligente."

eu vejo que elas não mudaram uma vírgula no comportamento. o amor delas é um peso. a ajuda delas é uma âncora. a única linguagem que elas conhecem é a da chantagem. e o único papel que me cabe nesse teatro é o do culpado. o bastardo que voltou pra sugar o dinheiro que ele nunca teve.


o arquiteto no terreno alugado.

e o que essa canção fez comigo?
ela me tornou um arquiteto de catedrais na porra da minha própria cabeça.
em minha mente, a ideia da catedral tem o mesmo efeito de quem se imagina ganhando na loteria. o que fazer com o prêmio? quem ajudar? quais viagens fazer?
um arquiteto que nunca construiu absolutamente nada.

o blog? perguntei ao google sobre ele. a resposta foi o eco do universo: "conteúdo não encontrado".
o arquiteto e sua lama, no chão, num terreno que sequer era seu. viciado em analisar feridas, mas não é médico. reclama das moscas, mas vive no pântano.


as borboletas e as moscas.

cada viagem – paris, santiago, a amazônia – não foi uma construção.
foi a porra de um atrativo para moscas.*
eu descobri da pior forma que borboletas amam somente flores. e flores, parça, são o privilégio de quem tem tempo de cuidar do jardim.
e não de eternos adolescentes com suas próprias guerras.

um beija-flor não parece se importar se o bebedouro é de plástico ou natural. aliás, o de plástico, com açúcar, é mais viciante. as minhas viagens, o meu avatar, eram o bebedouro de plástico. atraíam o que era fácil, o que era viciado em açúcar.
as borboletas, as anomalias, as vendedoras de doce... elas continuaram procurando a porra de um jardim de verdade.


a obra. finalmente.

e no meio desse domingo fodido, sangrando no tempo, eu finalmente me fiz a pergunta certa.
qual é a minha obra? a resposta não é a everkids. não é a ia. não é a porra de um cnpj.

a minha obra é essa lama.
a minha obra é esse sangue.

é parar de desenhar a porra da catedral na minha cabeça e, pela primeira vez, enfiar a mão na merda do barro que eu tenho na minha frente.
a minha obra não é a flor.
é a coragem de, finalmente, começar a cuidar da porra do jardim.
mesmo que ele seja, por enquanto, só um terreno baldio.

a obra, parça, é a própria dor.
e o trabalho, hoje, foi sentir ela.
até a última gota.