vitória = silêncio

eu passei a vida inteira achando que o meu jogo era xadrez. 

um sistema de lógica, de 2+2=4. eu me orgulhava da minha capacidade de analisar o tabuleiro, de prever os movimentos. e eu perdia sempre. porque o jogo, mano, nunca foi xadrez.

o jogo é pôquer. um caos de blefes, de apostas altas e de informações escondidas.

e o maior perigo nesse jogo não é o otário que não sabe jogar. é o dia em que você, um jogador viciado, senta na mesa e dá de cara com um mestre. uma jogadora impecável.

e foi o que aconteceu comigo.

ela não queria limpar as minhas fichas. ela não era uma predadora. e isso, mano, é o que torna a porra toda tão perigosa. ela não estava interessada no prêmio. ela era, como eu, viciada na porra do jogo.

a anatomia da jogadora perfeita

ela espelha os seus movimentos com uma precisão assustadora. ela sabe a hora de aumentar a aposta com uma demonstração de vulnerabilidade. sabe a hora de dar um "call" na sua merda com uma dose de silêncio. sabe a hora de blefar com um pé na porta, só pra ver você cobrir a aposta com tudo que tem.

ela não faz isso por maldade. ela faz isso porque o silêncio, a estabilidade, a porra da paz... pra ela, como pra você, soa como a morte. a única prova de que vocês estão vivos é a adrenalina da próxima rodada, da próxima crise, da próxima briga espetacular seguida pela reconciliação mais doce do mundo.

o vício não é na pessoa, é na voltagem

você se convence de que encontrou a sua alma gêmea. ninguém nunca te entendeu tão bem. ninguém nunca acompanhou o seu raciocínio, a sua intensidade.

mas o que você encontrou não foi uma alma gêmea. foi o seu parceiro de vício perfeito.

a droga de vocês não é o amor. é a intensidade. é a validação que vem de sobreviver a mais uma briga. é a conexão intelectual de duas mentes complexas que usam uma à outra como um laboratório para as suas próprias neuroses. é a beleza trágica de duas supernovas colidindo. o espetáculo é lindo. mas o resultado é sempre um buraco negro.

a falência anunciada

um jogo de pôquer entre dois viciados não termina com um vencedor. ele termina quando não há mais fichas na mesa. e as fichas, nesse jogo, são a sua sanidade, sua estabilidade, sua energia vital.

vocês vão sangrar um ao outro até a última gota, não por ódio, mas por amor ao jogo.

a única jogada vencedora

então, como você ganha?

você não ganha.

você aprende a reconhecer a porra da mesa. você senta, olha nos olhos da outra jogadora, e vê o mesmo vício, a mesma genialidade fodida, o mesmo buraco negro de necessidade.

e aí, com o maior respeito do mundo, você diz "boa noite", se levanta da mesa e vai embora.

a única vitória, para um jogador como nós, não é ganhar a mão. é ter a força de escolher não jogar. é trocar a porra da adrenalina do cassino pela paz tediosa de um canteiro de obras.

porque no final, a única coisa que um arquiteto pode construir de verdade é a própria porra da sua casa. e casas, mano, não se constroem em mesas de pôquer.