nós não somos mais estranhos.
é engraçado como as coisas acontecem. eu passei a vida toda me preparando para esse momento. quando as estrelas se alinham, quase sempre algo acontece.
em um desses pequenos momentos, que uma piscada faria passar despercebido, eu a conheci.
o chá. o convite para o caos.
assim como é no país das maravilhas, essa alice também parecia perdida.
e como um bom chapeleiro, eu a ofereci uma xícara de chá.
estranhamente, ela puxou uma cadeira e se sentou. bem do meu lado.
foi quando eu percebi que nossos caminhos haviam se cruzado.
ela, assim como eu, infelizmente, tinha a capacidade mais linda de todas.
ela também era uma arquiteta de pântanos.
a justificativa dela? o auge dos seus 19 anos.
a minha? a porra de uma vida inteira.
o abismo. a esperança que não entrega.
eu estive com ela por momentos difíceis. só não sei se eram meus ou dela.
talvez, naquele breve momento, eles foram nossos.
ela era tão linda quanto um abismo poderia ser. e eu não pude deixar de me sentir atraído.
aquele tipo de atração que te dá mais esperança do que entrega.
por breves momentos, eu fui dela. ela pareceu ser minha.
eu lati pra aquela bola de pelo, ela latiu de volta.
o país das maravilhas. o manifesto da esperança.
eu não pude deixar de contar a minha opinião sobre o país das maravilhas.
ela riu. ela foi educada.
ela fazia questão de, a todo tempo, me mostrar que aquele lugar ainda havia esperança.
hoje, eu não sei se a alice foi um momento, um movimento, um manifesto.
mas não pude deixar de sentir vontade de que ela ficasse para toda a eternidade.
mas o que uma alice iria querer com um chapeleiro maluco?
talvez o que as rainhas mais querem dos plebeus: nada
a distância. o fim da linha.
não me interessava seu passado. seu presente. tão pouco suas escolhas duvidosas.
minha vontade era pegar aquelas mãos de padeira, segurar bem forte, e dizer:
alice, você vem comigo. a distância acaba hoje.
mas eu não disse.
eu fiz um chá.
e acordei sozinho, com uma memória de alguém que me marcou profundamente.
e com a porra da certeza de que, no final,
toda alice, eventualmente, precisa sair do chá e voltar para o mundo real.
e todo chapeleiro, parça, continua sozinho.
com a sua loucura.
e a porra de um bule vazio.