Você persiste em tentar me extinguir da sua memória, como se a minha existência pudesse ser tratada como uma mancha removível. Ainda assim, tem a ousadia, quase cínica de apontar o dedo em minha direção por eu ter cometido uma traição. Sim, eu traí. Não há orgulho algum nisso, tampouco desonra. É apenas um fato. E, sobretudo, não há arrependimento por ter ido ao encontro daquele Felipe.
O Felipe das telas é uma versão empobrecida, quase caricatural; ele se transfigura, oscila, some e reaparece conforme lhe convém. Curioso como a instabilidade sempre foi atribuída a mim, quando, ironicamente, o diagnóstico de bipolaridade é meu, e, mesmo assim, quem muda de face com mais frequência é você.
Sou, para você, reduzida a um blog, uma narrativa simplificada, recortada, distorcida, como se a minha complexidade pudesse caber em anotações superficiais. E, apesar disso, sou alvo de reprovação, tenho o dedo apontado à minha face pelo simples fato de não ter contado ao Rômulo sobre a traição. Mas, afinal, por quê? Para quê? Ele está à beira do próprio abismo, e eu já o havia alertado tantas vezes sobre isso.
Você não é a causa do término, de forma alguma. A verdade é mais amarga e menos heroica: não damos certo porque ele insiste em me colocar em um pedestal desproporcional, inalcançável, e eu não me reconheço ali. Rômulo é, sim, o homem perfeito, seria um excelente pai, um marido íntegro, um porto seguro. Mas lhe falta a adrenalina. E quem a possui, Vitória? O Jason tem.
E por que não estou com ele? Porque, apesar de tudo, ainda cultivo certa afeição pela minha própria vida. Há limites para o caos que sou capaz de abraçar.
E, então, surge a pergunta inevitável: quem é o Felipe nesse enredo? O Felipe é a parte obcecada. A face intensa, febril, que fascina e consome.
Hoje mesmo escrevi uma síntese cruel, mas verdadeira:
“O carinho e afeto do Rômulo
A adrenalina e proteção do Jason
O calor e obsessão do Felipe”
E, por mais que você tente me reduzir, me apagar ou me moralizar, estas são as camadas que me constituem, e que você nunca teve coragem de enxergar.
Eu poderia amar os três? Poderia, sim. Minha capacidade de sentir sempre foi vasta demais para caber em moldes convencionais, essa é a verdade que ninguém admite em voz alta. Mas, ainda assim, fui eliminando todos vocês aos poucos, como quem apaga velas em um quarto onde a claridade começa a doer.
Não por falta de afeto, mas por excesso de lucidez. Porque amar três homens por diferentes razões é uma heresia social, mas renunciar a cada um de vocês foi um sacrifício emocional silencioso, quase ritualístico.
Eu poderia ter permanecido com o carinho do Rômulo, com a adrenalina do Jason, com o calor do Felipe. Poderia viver em três intensidades simultâneas. Mas escolhi o deserto, porque a multiplicidade dos outros, quando mal compreendida, vira crime; e a complexidade da mulher que sente demais é sempre julgada como falha moral. Caótico foi ver os 3 pedindo pra voltar. E eu ignorar isso.
E, no fim, é isso: não foi falta de amor. Foi excesso dele. E vocês nunca souberam o que fazer com isso. Enquanto vocês seguem suas vidas, eu tô jogada em um quarto que nem me encaixa mais, com os braços pintando sangue, e eu tentei lutar com isso com todas minhas forças. Agradeço pela Lily não vê isso, sei que me daria um lição de moral. Mas é essa a Vitória Gabriela, eu sou quebrada, e eu quebro quem tenta se aproximar.