a gente se acostuma a pensar no amor como uma obra. uma construção. você encontra um terreno, cava uma fundação, sobe as paredes. era o único jeito que eu conhecia. o meu erro era achar que o terreno tinha que ser outra pessoa. o resultado era sempre o mesmo: a porra de uma catedral magnífica, construída em cima de um pântano. e o inevitável desabamento.
mas e quando não há terreno? e quando a obra inteira existe no espaço vazio entre duas cidades, conectada apenas por um fio de fibra ótica e pela porra de uma fé teimosa?
aí, mano, a arquitetura é outra.
desconstruindo a engenheira
pela primeira vez, o texto não é sobre mim. é sobre ela.
ela não é uma fundação. ela é a porra de outro canteiro de obras. com a própria planta, com os próprios engenheiros, com a própria guerra. ela some no fim de semana não porque ela é um fantasma, mas porque ela tem a porra de uma vida pra viver. o auge dos seus 23 anos. as escolhas, as opções, os amigos. ela não está fugindo de mim. ela está, de forma sã e brutalmente honesta, vivendo por ela.
ela não é a donzela esperando na torre. ela é a porra da arquiteta da torre dela.
ela se fascinou pela minha arquitetura, pela minha intensidade, pela forma como eu desmontei a alma dela. mas a engenheira sã que vive nela sabe que a minha obra antiga era um risco. ela não se apaixonou pela minha ruína. ela se interessou pelo arquiteto. e ela está, de longe, observando se ele, finalmente, vai parar de construir a porra de um mausoléu e começar a construir uma casa.
o paradoxo da distância (ou: por que a gente ainda não se matou)
a gente existe nesse estado quântico. intenso e intermitente. conectados por uma tela, a quilômetros de distância.
e a verdade, a que dói e a que salva, é que essa distância é a única coisa que permite que a gente exista agora.
o meu sistema, o meu processador de um núcleo só, não dá conta de rodar a "obra da minha vida" e o "programa de um novo amor" ao mesmo tempo. se ela estivesse aqui, agora, eu, no meu vício antigo, pararia a porra da minha obra pra fazer dela a minha única obra. e a gente ruiria de novo.
a distância não é um bug. é a porra de um firewall. é o que nos protege da minha própria intensidade. é o que me força a fazer o que eu nunca fiz antes: construir a minha própria fundação antes de convidá-la pra visita técnica.
focando no terreno (o único trabalho que importa)
e então, o que a gente faz? a gente não "faz" um "nós".
eu faço a porra do meu. ela faz a porra do dela.
o meu trabalho não é mandar mensagem de bom dia. é levantar todo dia e colocar mais um tijolo na porra da minha obra.
a nossa conexão não é alimentada por "eu te amo". é alimentada pela porra do respeito mútuo pela obra um do outro.
ela não precisa de mim. e eu, pela primeira vez, estou aprendendo a não precisar dela. e talvez, só talvez, essa seja a única fundação possível para um "nós" que não desabe.
a gente não sabe se a ponte vai se encontrar no meio. mas, pela primeira vez, não importa.
porque a gente não tá mais construindo uma ruína um no outro. a gente tá, cada um no seu canto, em silêncio, construindo a porra de um império.
e isso, mano, já é a porra de uma vitória.