interlúdio: sobre vitórias e o silêncio do barro.

acho que preciso cravar uma nova regra na alma, talvez com a mesma faca cega que usei pra outras marcas: parar de construir catedrais em corações alheios. parar de pedir abrigo em casas que só existem na minha cabeça. talvez assim, só talvez, a próxima ruína demore um pouco mais a chegar.

caro leitor (ou, vamos ser honestos, cara leitora fantasma, a probabilidade de ser você, a vitória original, assombrando essas linhas, é quase uma certeza melancólica), talvez seja hora de silenciar. um interlúdio. não porque as histórias acabaram, ah, elas nunca acabam, são só a mesma melodia triste tocada em instrumentos diferentes. mas porque o arquiteto cansou do palco. cansou da luz artificial. ele precisa voltar pra lama. pro cheiro de terra molhada. pro silêncio pesado do canteiro de obras abandonado que ele chama de alma.

tivemos a vitória recente. o sopro. dezoito anos e um pedido de namoro que evaporou como orvalho sob o sol de goiás. um lembrete. sempre o mesmo: tentar plantar orquídeas no pântano é só um jeito mais bonito de assistir a flor morrer afogada. foi... fugaz. quase um arranhão, se a memória das fraturas expostas não fosse tão viva. quase.

e pensando bem, a vitória antiga... a musa da vertigem. o "sorriso envenenado". havia uma beleza ali, não? a beleza do abismo que te chama pra pular. o "monstrinho lindo". a complexidade que era ópio. o golpe que ainda ecoa, a humilhação muda, foi o espelho. sempre ele. o reflexo no rock star de barbearia. a prova de que a profundidade, no fim, sempre perde para a superfície brilhante. mesmo que o brilho seja falso.

antes dela, a rafa. a engenheira. a miragem da solidez. o projeto mais audacioso. a única vez que o arquiteto ousou sonhar com fundações reais. mas a rachadura, como sempre, não estava na estrutura. estava no arquiteto. viciado demais na poesia da ruína para suportar a prosa tediosa da construção. o laudo de interdição dela foi um ato de lucidez que, na época, soou como a mais pura crueldade.

e o que resta? depois de empilhar escombros como se fossem memórias? a risada. aquela que nasce na boca do estômago. a que não tem som. a que ecoa no vazio do peito. a risada de quem se reconhece no próprio labirinto, de novo. a risada de quem coleciona fantasmas e ainda ousa chamar isso de viver.

então, por agora, o silêncio. não porque a busca acabou. a busca nunca acaba. ela é a porra da condição. mas porque cansei de gritar em catedrais vazias. cansei de oferecer minha alma como matéria-prima pra quem só queria usar meus tijolos pra construir muros. a obra, aquela de construir um chão qualquer, um lugar mínimo pra existir que não dependa do olhar alheio... ela me chama. com a urgência silenciosa de quem sabe que o tempo está se esgotando. ela exige a solidão. o peso do barro. a monotonia brutal do trabalho braçal.

talvez um dia outra história mereça ser contada. talvez a próxima catedral não desabe tão rápido. talvez eu nunca aprenda. fique por perto. vocês (ou você, vitória) são a única testemunha dessa lenta implosão.

e quer saber o mais fodido? talvez a única coisa que me mantenha de pé seja a porra da necessidade de transformar essa merda toda em palavras. escrever pra não morrer. ainda.

agora, com licença. o barro esfriou. e o silêncio, parça, o silêncio exige que a gente escute.