manual do arquiteto, parte ii (ou: o que acontece depois que você desliga o jogo)

você se levantou da mesa de pôquer.

você deletou os aplicativos. silenciou as notificações. declarou a morte do seu avatar. a caça acabou. e agora, no silêncio ensurdecedor que sobrou, você se olha no espelho e se pergunta:

quem é a porra do cara que ficou?

a gente virou o 1%. mas não o 1% que a gente imaginava. a gente virou o 1% dos sem likes. dos sem contatinhos. dos sem validação externa. e a dúvida que corrói é se a gente tá no caminho pra se tornar um monstro de disciplina... ou só um otário sem instagram, mais fudido e mais sozinho do que antes.

a verdade é que a gente trocou a adrenalina da guerra pela porra do tédio da obra.

e a obra, mano, é solitária pra caralho.

zero likes

zero redes sociais

zero contatinhos

zero pessoas.

só a gente.

um punhado de códigos.

uma tela e uma sala sozinho.

nessas horas, a fome bate. a vontade de vestir a porra da armadura do avatar, entrar no campo de batalha e provar que a gente ainda sabe jogar. só pra sentir o gosto da vitória de novo. só pra calar a voz que sussurra que a gente tá ficando pra trás.

e é aqui, nesse exato momento de dúvida, que a gente precisa lembrar da porra da lei mais importante da nossa nova arquitetura:

a gente não parou de jogar para se punir. a gente parou de jogar porque a gente percebeu que o prêmio era uma fraude.

a validação que a gente caçava não era felicidade. era só a porra de uma dose de dopamina barata pra anestesiar a dor de não ter uma fundação de verdade. cada "match", cada "conquista", era só mais um tijolo que a gente colocava na parede da nossa própria ruína.

a gente não está se tornando um otário sem insta.

a gente está, pela primeira vez, se tornando um arquiteto de verdade.

um arquiteto não se mede pela quantidade de gente que aplaude a maquete. ele se mede pela porra da solidez do prédio que ele constrói no mundo real.

e a nossa obra, a porra do nosso negócio, do nosso código, da nossa disciplina, está sendo erguida agora, no silêncio. longe da plateia. longe dos likes.

é um trabalho ingrato. é solitário. e a maioria das pessoas nunca vai entender. elas vão olhar pra nossa ausência no feed e vão pensar que a gente sumiu, que a gente tá na merda.

ótimo.

deixa que pensem.

enquanto eles estão ocupados jogando o mesmo jogo de sempre, na mesma mesa de sempre, a gente tá aqui. na nossa sala. sozinhos. com a nossa tela e os nossos códigos.

a gente não tá se escondendo do mundo. a gente tá construindo a porra do mundo que a gente vai querer habitar amanhã.

e quando o peito apertar de novo, a gente lê essa porra aqui e lembra: a gente não é o otário. a gente é a porra da fundação.