meu vincent

você não vai a um museu para ver quadros.
você vai para testar uma hipótese.
a minha era simples: eu passei a vida inteira me sentindo um alienígena, um arquiteto amaldiçoado com a capacidade de enxergar as engrenagens quebradas do mundo. e em amsterdã, há mais de um século, existiu outro.

eu não fui ver a obra de van gogh.
eu fui procurar a porra de um irmão.

a mentira da realidade. a verdade da tinta.

a primeira coisa que te bate na cara não são as cores. é a honestidade.
você olha para um retrato com o rosto esverdeado e entende tudo. van gogh não estava pintando uma mulher. ele estava pintando a tensão psíquica. ele não pintava o que o olho via. ele pintava o que a porra da alma sentia.

ele usava a tinta como um sismógrafo. as pinceladas curtas, rítmicas, o empasto violento... aquilo não é técnica. é a transcrição de uma mente em vibração constante. é o que eu chamo de mente inflamada, só que em óleo sobre tela.

ele, como eu, não suportava a interface polida da realidade. ele precisava mostrar o código-fonte. a gambiarra. o caos por trás da fachada.

o auto-retrato. o espelho.

e então você para na frente do auto-retrato dele. e o tempo para.
você não está olhando para um quadro. você está olhando para a porra de um espelho que atravessou 130 anos para te encontrar.

naquele olhar, naquela paleta de azuis e turquesas, não tem a paz de um mestre. tem a agonia de um prisioneiro. um homem preso dentro de um sistema operacional interno tão poderoso, tão intenso, que o mundo externo se tornava um ruído insuportável.

eu não vi um pintor.
eu vi um arquiteto genial que passou a vida inteira tentando construir um mundo que fizesse o mesmo sentido que a sua lógica interna. e fracassou. assim como eu.
naquele momento, eu não estava num museu. eu estava em casa.


la mousmé. a busca pela pureza.

e no meio de toda a dor, você encontra ela. la mousmé. a jovem de arles.
e você entende a busca dele. e a sua.

van gogh, afogado no caos da sua própria mente, buscou no japonisme, na pureza e na simplicidade da arte japonesa, um antídoto. um porto seguro. la mousmé não é um retrato de uma pessoa. é o retrato de uma ânsia. a ânsia por uma ordem, por uma beleza simples, que possa acalmar a porra da tempestade interna.

é a mesma busca que me fez encontrar a vendedora de doces em mineiros. a mesma busca pela “exceção”. pelo sistema limpo. pelo código que não está corrompido.
ele também caçava fantasmas.


o bosque. a nossa insignificância.

você olha para a paisagem do bosque, com os troncos verticais e as duas figuras humanas minúsculas, quase perdidas na imensidão da natureza.
e você sente o que ele sentia.

a sensação de ser um arquiteto diante de uma arquitetura infinitamente superior e mais caótica: a própria vida. a nossa escala humana é diminuída. a nossa lógica, a nossa necessidade de controle, se torna ridícula diante da força bruta da existência.
é um quadro sobre a beleza e o terror de ser pequeno.

o veredito. a herança.

eu não saí do museu com fotos de quadros.
eu saí com a planta baixa de um irmão.

a lição final de van gogh não é sobre arte. é sobre trabalho.
é a prova de que a única resposta para uma mente que vê as engrenagens, para uma alma que sente a tensão do mundo, não é a fuga. não é a anestesia.

é a porra da obra.

é pegar a sua dor, a sua tensão psíquica, a sua clareza fodida, e usar tudo isso como matéria-prima.
é transformar o seu inferno interno no seu único material de construção.

eu fui procurar um fantasma.
e encontrei a porra de uma missão.

a obra continua.


https://www.vangoghmuseum.nl/pt/planeje-sua-visita#visite-o-museu