monstrinhos não gostam de gente, não tanto assim

criatura linda, cheia de cicatrizes.
sem grandes amores, sem muito contato social, um punhado de histórias tristes.
corpo marcado por tatuagens, braços riscados por lâminas.

o passado não te define, mas cicatrizes são marcos.
será que eu seria alguém que te salvaria de você mesma?
ou só mais um querendo te transformar no que eu sou?

não gosto de gente, mas você, eu mantenho por perto.
foi o que escutei você dizer.

sem grandes amores pra dividir milkshakes em paris,
tão poucos dragões de neve nos andes.
e me perguntei: como alguém tão pequeno consegue manter uma visão tão limitada de mundo?

em tempos de internet, isso é raro.
pra alguém que “não gostava de gente”, você postava demais, conversava demais.
talvez houvesse algo errado nessa percepção.

como alguém que não gosta de gente consegue conversar com tanta gente?
entendi que sua percepção de mundo transborda os dedos da realidade.
talvez nunca tenham te dito que seus gostos temporários não são o fim da ponte.
você não é o que pensa que é
você é o que faz no mundo.
e você sabe disso.

textinho.
palavra que combina com você: rápido, se bem escrito, o suficiente.
não traz manual de uso, mas é isso que o torna interessante.

escutei você dizer:
sou antissocial.
pensei: como pode ser antissocial sem antes ter sido social?
não seria apenas limitação?

antissocial, segundo o priberam, é “contrário à boa ordem social”.
me recuso a acreditar que alguém avesso à ordem social tem redes sociais,
aceita o sistema de educação padrão,
se insere tão facilmente no status quo.

escuto isso de alguém que abre caixinhas de perguntas,
que conheci no tinder,
que flerta abertamente,
que não pode me encontrar porque vai cuidar da avó que mais ama no mundo.
um antissocial que ama gatinhos 
talvez a ordem social dos gatos seja mais apropriada, rs.

então, você é a soma das suas ações ou o que acredita que é?
quando acreditamos, não nos aprisionamos?
a liberdade talvez seja acreditar, mas sabendo que as lentes estão sujas.

vejo stories em bares,
caixinhas que flertam e debocham de homens que se sentem atraídos por alguém que nunca prometeu nada,
mas vive entregando muito.
aliás, mais do que deveria.
deixando partezinhas suas em cada um que toca.
a troca de quê?
forjada numa armadura de antisociabilidade,
sem perceber que entregou todo o social que tinha pelo resto da vida.

talvez esse texto não seja pra te julgar.
talvez não tenha percebido,
mas isso sempre foi uma carta de amor.

carta de amor de alguém que nunca quis ficar.
de quem nunca pediu nada além de presença e inteireza.
inteireza — talvez do verbo “esteja comigo por inteira, porra”.