a gente viaja por motivos diferentes. a maioria vai pra paris pra tirar uma foto bonita pro avatar, pra comer um croissant e dizer que viveu o romance.
eu não. eu fui pra montmartre pra caçar fantasmas.
a caça. o fantasma.
eu queria andar nas mesmas ruas de paralelepípedos que van gogh andou quando tava fodido e ninguém entendia a porra da genialidade dele. eu queria sentar nos mesmos bares onde picasso rabiscava revoluções em guardanapos. eu não fui procurar a beleza. eu fui procurar a verdade. a mesma verdade crua que eu busco em tudo. eu queria saber se a matéria prima que eles usaram pra criar ainda tava lá.
a sintonia. o espelho.
e o que eu encontrei não foi um bairro. foi um espelho.
as minhas fotos de lá não mentem. o céu é cinza. as árvores são esqueletos. as ruas brilham com uma chuva fina e melancólica. não foi azar. foi sintonia. o lugar me mostrou a alma dele e a alma dele era parecida com a minha.
a arquitetura. as cicatrizes.
eu não foquei na perfeição da basílica. eu foquei nas cicatrizes. nas texturas das paredes antigas, no reboco envelhecido, no peso de um milhão de promessas de amor enferrujando num portão. porque a beleza que dura não é a que nasce perfeita. é a que sobrevive.
van gogh não amava aquele lugar por ser bonito. ele amava por ser real. um vilarejo de artistas fodidos, outsiders, sonhadores, todos eles tentando construir um chão pra si mesmos, com a única ferramenta que tinham: a própria dor.
a luz. o sinal.
e no meio de todo esse cinza, eu entrei na sacré-cœur. e lá estava. um único, fodido e inegável feixe de luz cortando a escuridão da igreja. a clareza. o sinal no meio do ruído. a prova de que a luz existe, mesmo que você precise atravessar um labirinto de pedra e de história pra encontrá-la.
o veredito.
eu fui pra paris querendo ver o que os grandes artistas viram. e eu consegui. eles não pintavam paisagens. eles pintavam a própria alma. e foi exatamente o que eu pude tirar de fotos por lá.
a viagem não foi pra alimentar o avatar. foi pra matar ele de vez. pra me lembrar que a única forma de construir algo que dure é começar pela fundação. e a fundação é sempre a verdade crua.