arquiteto de pântanos
eu sou um arquiteto. um dos bons. a minha especialidade é projetar catedrais em cima de pântanos. estruturas magníficas, complexas, cheias de vitrais coloridos e vãos impossíveis. a física, pra mim, sempre foi um detalhe negociável.
a engenheira sã
e então eu a conheci. ela não era um terreno. ela era a porra de uma engenheira sã. a melhor da área. uma mulher que entendia de fundação, de cálculo estrutural, de realidade. a lógica dela não era baseada no sonho, era baseada na porra da gravidade.
e eu, pela primeira vez, não vi um lugar pra construir. eu vi uma parceira de obra. eu olhei pra solidez dela e pensei: "finalmente. alguém que entende a minha linguagem."
e eu, pela primeira vez, não vi um lugar pra construir. eu vi uma parceira de obra. eu olhei pra solidez dela e pensei: "finalmente. alguém que entende a minha linguagem."
o nosso projeto
a gente não começou um namoro. a gente abriu a porra de um escritório. o projeto era ambicioso: construir algo real, algo que ficasse de pé. ela entrou com a engenharia. eu, com a minha arquitetura caótica.
no começo, foi a coisa mais linda do mundo. a minha genialidade de sonhador encontrou o pé no chão da engenharia dela. ela olhava para os meus projetos mais delirantes e, em vez de rir, dizia: "ok, isso é insano. mas se a gente reforçar essa viga aqui e recalcular a carga ali, talvez não desabe."
ela não tentava me consertar. ela tentava, com a calma de uma mestre, encontrar uma forma de traduzir a minha loucura para as
leis da física.
a falha estrutural
o problema, mano, é que eu não queria um ajuste na planta. eu queria que a porra da física se curvasse a minha vontade.
a minha arquitetura não era só sobre o prédio. era sobre a minha guerra civil interna. sem perceber, a transformei na engenheira-chefe da minha própria estabilidade. eu terceirizei pra ela a construção da minha paz. e a carga, mano, era pesada demais.
nenhum engenheiro, por mais genial que seja, consegue impedir um prédio de ruir quando o arquiteto está secretamente sabotando a própria fundação.
o problema, mano, é que eu não queria um ajuste na planta. eu queria que a porra da física se curvasse a minha vontade.
a minha arquitetura não era só sobre o prédio. era sobre a minha guerra civil interna. sem perceber, a transformei na engenheira-chefe da minha própria estabilidade. eu terceirizei pra ela a construção da minha paz. e a carga, mano, era pesada demais.
nenhum engenheiro, por mais genial que seja, consegue impedir um prédio de ruir quando o arquiteto está secretamente sabotando a própria fundação.
o laudo de interdição
a ruína não veio com uma briga. veio com um relatório técnico. com a constatação fria de que a obra era inviável. que o terreno (eu) era instável demais. que o arquiteto era viciado demais na beleza da própria tragédia.
a engenheira sã, para salvar a si mesma, teve que condenar o prédio. ela não me abandonou. ela assinou a porra de um laudo de interdição. foi o ato mais lógico e, talvez, o mais amoroso de todos.
encarando o terreno
e agora? agora eu estou aqui. vendo a obra de longe. sozinho. pela primeira vez, eu não estou olhando para os escombros da catedral que a gente tentou construir.
eu estou, finalmente, olhando para a porra do terreno.
a geotecnia da alma
o trabalho, agora, não é mais sobre ela. não é sobre "trazer ela de volta". é sobre a porra da geotecnia. é sobre drenar o pântano, compactar o solo, construir uma fundação que, pela primeira vez na minha vida, talvez não ceda.
é um trabalho lento. é solitário. é chato pra caralho.
não tem a beleza da arquitetura, nem a solidez da engenharia. é só a porra da lama.
o trabalho, agora, não é mais sobre ela. não é sobre "trazer ela de volta". é sobre a porra da geotecnia. é sobre drenar o pântano, compactar o solo, construir uma fundação que, pela primeira vez na minha vida, talvez não ceda.
é um trabalho lento. é solitário. é chato pra caralho.
não tem a beleza da arquitetura, nem a solidez da engenharia. é só a porra da lama.
a obra final
e talvez um dia, quando o terreno estiver firme, a engenheira passe pela rua e veja um canteiro de obras diferente. um onde a fundação parece sólida. e talvez ela se interesse. ou talvez outro engenheiro apareça.
ou talvez, só talvez, o arquiteto chegue a conclusão que a porra da obra mais importante da sua vida era só construir um lugar sólido o suficiente para ele mesmo morar.
s o z i n h o.