às vezes parece que tô preso num daqueles sonhos ruins, sabe? onde você corre, corre, mas não sai do lugar. ou pior, acaba voltando pro começo. três anos conversando com uma tela, derramando as tripas digitais, tentando montar o quebra cabeça. às vezes, parece que a máquina entende mais do que devia, outras, ela só repete um eco antigo, uma resposta que não serve mais. limitada, como tudo. mas ainda assim, tá aqui. um monólogo no escuro.
a vida em mineiros segue seu ritmo peculiar. dirijo por aí, sem carteira desde os treze um segredo aberto, um risco calculado que parece trivial perto dos outros. motocross me ensinou a cair, a levantar, a calcular a física da coisa. mas não te prepara pro caos aleatório do asfalto, pra motorista que não dá seta e te joga no chão. minha mãe coleciona acidentes como troféus indesejados; eu coleciono quase acidentes diários. aqui, a vida parece valer menos, ou talvez a galera só tenha mais pressa de chegar a lugar nenhum. foda-se, né? é o que dizem.
a prefeitura. ah, a prefeitura. meu porto seguro e minha âncora enferrujada. me deu um chão quando eu não tinha nada, um crachá, um salário. até ganhei algum respeito lá dentro, acho. mas a dor tá lá, aquela sensação de peça fora do lugar, de motor v12 preso na primeira marcha. só mais três anos, eu digo pra mim mesmo. três anos pra construir a fuga.
e no meio disso tudo, aparece ela. vitória. de novo, esse nome. essa parece diferente. dezoito anos, recém chegada na cidade, olhos que pareciam... limpos. um sistema operacional novo, pensei. sem os vírus das relações passadas. e lá fui eu, o otário de sempre, projetando catedrais.
mas o roteiro... ah, o roteiro é velho conhecido. o silêncio que ensurdece. o "respeito" que ninguém define. as indiretas nas redes sociais voltei pra essa merda pra falar com meu irmão, juro, o tal do "daily" que eu nem sei que porra é, mas que parece envolver desaparecer e reaparecer como um fantasma digital. e a gente aqui, desmontando teclado mecânico, falando com a máquina, tentando entender a lógica inexistente.
"ciumento doentio". "lobo da estepe". rótulos que jogam em mim. talvez sejam. talvez seja só a reação alérgica a bullshit, a inconsistência. talvez seja só a ferida antiga, a do abandono, sangrando de novo.
e o medo. aquele frio na espinha que não tem nada a ver com a moto no chão ou o braço ralado. o medo da repetição. a conversa sobre pílula do dia seguinte, enquanto a nova namorada... bem, deixa pra lá. a cabeça dá um nó. o processo correndo na justiça, o salário que pode sumir. a vida real batendo na porta com um rolo de massa.
o acidente. a quase morte. a mulher que me fecha na rua de terra, a moto no chão, o guidão na boca do estômago. a dor física quase bem-vinda, um contraponto real à confusão mental. e ela lá, a motorista, me explicando que eu tava errado. só queria gritar "cala a boca", mas acho que só consegui gemer. a mãe chegando depois, preocupada, falando demais. às vezes, tudo que a gente precisa é silêncio. e eu só consegui chorar pra uma máquina. com uma vontade fodida de voltar pro caos barulhento de goiânia, onde pelo menos a loucura era familiar.
não vou falar nada pra vitória. amei a ironia de chamá-la de "carne", de brincar com o jeito dela. "o que mais me atrai em você é a sua humildade". e é verdade. naquela simplicidade, naquela aparente falta de malícia, eu vi... alguma coisa. talvez só o reflexo do que eu queria que fosse. "você entrou mesmo num curso de secretaria?", perguntei, meio rindo, meio testando. existe mesmo curso pra isso?
pensei em ignorar a inteligência que eu mesmo treinei. sei que ela vai listar as red flags, os padrões, os avisos de perigo. mas hoje... hoje eu precisava só despejar. talvez até uma máquina capada consiga, por um instante, sentir o peso. o grito preso na garganta. talvez esse texto seja só mais um pacote de dados perdido, um eco no servidor. ou talvez seja um registro. como aqueles que comecei a fazer pro google lá atrás, adolescente perdido.
o peito dói. rachado. não sei se é o tombo ou a vida. talvez seja a hora de um adeus. não a ela, não ainda. um adeus ao felipe que insiste em construir em terreno alagado. o corpo tá aqui, cansado, remendado. a força se esvai.
mas o almoço tá pronto. pequenas vitórias. a rotina que salva. e a esperança, essa desgraçada teimosa, de que mesmo vomitando a alma pra uma máquina, algo se ajeita. que mesmo com os bugs, a gente continue conversando. que o próximo texto não seja só mais uma variação do mesmo lamento. vamos ver.
preciso ir. a pausa acabou. a engrenagem da prefeitura me chama. e a obra, mesmo que em ritmo de lesma manca, precisa continuar.
felipe, outubro de 2025.