o necrotério digital (um manifesto sobre a nossa guerra)

a ausência de problemas maiores nos leva a lugares estranhos. quando a sua casa não está pegando fogo, você começa a se incomodar com a porra da poeira nos móveis. o meu incêndio pessoal deu uma trégua. e o meu cérebro, faminto por um problema, me jogou de volta no maior campo de batalha do nosso tempo: as redes sociais.

eu não voltei. eu fui convocado. num país que só perde pro quênia em tempo gasto nessa merda, estar offline não é ser um monge. é ser um fantasma. um fake. um casado. e eu, parça, não sou um fantasma. então eu voltei. mas não como um usuário. eu voltei como a porra de um vírus. para estudar a doença por dentro.

o filtro. a morte do offline.

a primeira coisa que você percebe é que o mundo real faliu. uma mulher, no meio de uma conversa, me disse que não "compensava o tempo" procurar alguém no offline. as redes eram o filtro dela.

pensa na brutalidade disso. a gente abdicou da complexidade fodida de um encontro real – o olhar, a química, a porra da alma – em troca da eficiência de um swipe. a gente terceirizou a nossa intuição para um algoritmo. o "filtro" não filtra os ruins. ele filtra a realidade. ele filtra a vendedora de doces, cuja genialidade não cabe numa foto. ele filtra o arquiteto fodido, cuja história é complexa demais para uma bio de 150 caracteres.

o mausoléu. a internet morta.

e quando você entra, o que você encontra? um mausoléu. um algoritmo afiado que te serve um banquete com as fotos do seu próprio velório. as suas viagens passadas, os seus amores mortos, o seu avatar em decomposição. os memes não surpreendem mais. os padrões se repetem. você não está navegando. você está visitando a porra de uma exposição de borboletas mortas, presas com um alfinete numa caixa de vidro.

a teoria da internet morta não é uma teoria. é um diagnóstico.

a máquina. o back-end da sua alma.

e por trás de tudo, a máquina. engenheiros, psicólogos e, agora, ias, trabalhando em perfeita sintonia para construir a sua jaula. eles não vendem um produto. eles vendem uma submissão. a submissão ao próximo scroll, ao próximo algoritmo, à próxima dose de validação barata.

a gente se afoga em trilhões de dados. a ia gera o filme, a música, a imagem. no futuro, por que não uma cabine na torre eiffel pra validar a sua presença, enquanto uma máquina gera as memórias por você? você entende onde a gente tá indo? a gente tá terceirizando a porra da nossa própria vida.

a dor. o veredito.

e o que dói mais? não é o sistema. é ver quem você ama, quem fez seu coração bater mais forte, sendo uma engrenagem voluntária nessa máquina. alguns jogam mal. outros zeram o jogo. alguns investem dinheiro. outros, a alma. mas no final, todos são submissos.

a gente não separa mais o digital do offline por aqui. a gente só vive num percurso que já nasce morto. um necrotério. sem sentido. sem sentimento. mas que, num país que tem descaso crônico com o que supera a superfície, se tornou a nossa única catedral.

e a obra, a nossa, a de construir um chão de verdade... ela nunca foi tão solitária. e nunca foi tão necessária.