o palco e o abismo: um mapa nada otimista da vida real, instagram e o caos da existência



começa assim: eu nunca fui bom de palco, mas sempre estive nele. não tem nem escolha, né? o instagram é tipo um leilão de autoestima, o tinder é a sacolinha surpresa do fracasso moderno. odeio o circo, odeio a pose, odeio a eterna pose de felicidade enquanto por dentro todo mundo tá só esperando cair a ficha. mas cá estou, cá estamos. já desinstalei, reinstalei, dei unfollow, segui de volta, tudo num looping que não acaba nunca. se você acha que tem escolha, é porque ainda não caiu a ficha.

não é texto de autoajuda, nem desabafo de grupo de apoio. isso aqui é só uma cartografia torta do território onde eu e um monte de gente se perdeu. pixel por pixel, cada like é só mais um pingo d’água no aquário. e a água tá turva faz tempo.

todo mundo se acha transparente, mas é vidro grosso, distorcido. parece que tão te vendo, mas ninguém vê porra nenhuma. o palco do instagram é coletivo, mas o bastidor é individual. quem aplaude sua “felicidade” nem imagina o tanto de tralha escondida atrás do feed. só vê pose, não vê o preço. todo mundo performance, ninguém real. a legenda tem sempre aquela piadinha, aquela indireta, mas se você foca, sempre tem um ruído de ansiedade, um cheiro de pânico no ar.

e essa é a moeda: aprovação, validação, “pertencimento”. todo mundo com medo de ser esquecido, de sumir do algoritmo dos outros. então a gente mantém perfil, finge que tá bem, faz a linha “me valorizo”, mas não consegue desgrudar do feed, esperando o próximo like pra sentir que existe. e cada post é uma marquinha digital dizendo “me nota, por favor”.

tá, e o relacionamento nisso tudo? é só você e o palco? não. é você e o palco, e todos os outros palcos em volta. curtiu a foto do ex, comentou com emoji pro “amigo”, seguiu a mina que conheceu na balada, deixou o like no story do cantor. cada movimento é analisado. o campo minado não tem placa de aviso. tudo é ameaça, tudo é ensaio. e ninguém fala sobre isso — só age, cutuca, responde com emoji, faz silêncio passivo-agressivo, e chama isso de “vida adulta”.

você vira policial do próprio feed e do feed do outro. não postou junto, crise. postou com quem? crise. respondeu caixinha? crise. não respondeu? crise. não tem como ganhar esse jogo. você joga pra perder. todo mundo querendo garantir exclusividade num mercado de distração infinita.

e não se engane: o instagram não é reflexo, é amplificador. ele não mostra o que você sente — ele faz você sentir mais, sentir torto, sentir feio. o feedback é sempre imediato, mas nunca suficiente. nada na tela vai preencher a fome de significado que corre solta por dentro. e quanto mais você tenta, mais vazio fica.

a atenção virou moeda de troca. não é sobre mostrar, é sobre disputar luz, disputar espaço mental no feed dos outros. tudo calculado, nada espontâneo. cada “oi sumida” vale menos que o preço do litro da gasolina. cada match é só mais uma notificação que desaparece em 24 horas.

o tinder, então, é tipo mercado livre da dignidade. você vira produto, foto, descrição. conversa virou algoritmo. quem mais se vende, mais coleciona rejeição. ninguém investe de verdade porque todo mundo já entrou pra perder. é um mercado que só paga em decepção.

e por que não larga de vez? porque tá viciado, pô. a máquina foi feita pra isso. notificação virou jujuba pra cérebro cansado. você desinstala e volta, se sente bosta e volta, toma bloco e volta. tudo pra rodar na esteira emocional e sentir por um segundo que tá vivendo algo, mesmo que seja só mais uma notificação inútil.

e o veneno? é velho conhecido. não é culpa do instagram, mas ele turbina o pior que já tava aqui dentro. quem tem buraco de infância, carrega pro story. quem nunca foi prioridade, lê abandono até no visto. você tenta controlar o ambiente porque não aguenta mais a dor de ser descartado. só que o controle não salva ninguém. só multiplica o drama.

as redes são só um teatro pra reviver trauma. cada seguidor novo, cada curtida em post de ex, cada sumiço, é replay de abandono, rejeição, invisibilidade. e aí você se pega mendigando atenção de novo, esperando que uma hora esse ciclo acabe. não vai acabar. não do jeito que tá.

então qual é o plano? não é criar outra rede, não é tentar a fórmula do detox. é, talvez, aprender a existir sem plateia. o único jeito de sobreviver é parar de correr atrás de validação, parar de querer preencher vazio com feed. ser inteiro, mesmo que seja só metade, mas uma metade honesta. aprender a viver o tédio, construir qualquer coisa fora da tela, colocar energia em projeto que não dependa de like ou reply.

a real é essa: ninguém vai te salvar do palco. ninguém vai te dar palco de graça. todo mundo quer protagonismo, ninguém quer bancar o coadjuvante do roteiro do outro. e quem tenta controlar tudo só descobre que o controle é a primeira coisa que a vida te arranca.

meu mapa é torto, mas tá aí. sair do ciclo é deixar de buscar validação na tela, deixar de ser refém do feed. é construir chão próprio. é não depender do algoritmo pra saber se vale alguma coisa. é ter coragem de ser invisível, de ser esquecido, descobrir, no silêncio, que talvez seja aí que começa o que realmente importa.

e se alguém ainda ler isso daqui cem anos, só digo: o palco era gigante, mas a plateia era de papelão. e o abismo não era o fim, era só o lugar onde finalmente dava pra ouvir o eco da própria voz.