o ponto final. o renascer do que resta. (quem foi a garota, a Vitória, do blog do Felipe Paulo)

ela apareceu com o sorriso envenenado. 


esses dias, a criatura mais inteligente que eu conheço. jogou na minha cara o veredito: "melancolia repetitiva. cê parece uma mistura de caio fernando abreu e fresno.  ela viu a porra da madeira queimada. não o inferno que eu estava ateando para incinerar a carcaça do que eu um dia fui. e ela estava certa. na superfície. como a maioria das verdades.

mas a verdade é que, dentro de mim, ainda pulsava um veneno. uma ferida aberta. o nome dela era Vitória.

ela apareceu. uma foto. "toda feliz. novo namorado." não era uma foto, não. era uma porra de um tiro à queima-roupa. direto no meu peito, atravessando a alma.

ele era músico, jovem, sem filhos, descolado. e eu me vi. o cara. o que carrega o peso. o que luta no escuro. o que não tem a leveza, a porra da aura de "novo". a comparação não era um julgamento. era a porra de um espelho distorcido que ela segurava na minha cara. "você é o 'arquiteto'? 😂 O arquiteto de bosta, talvez." essa voz, dela e minha, ecoava no vazio do meu peito. eu senti. ah, como eu senti. cada porra de facada de humilhação.

ela não precisou de palavras. não precisou de uma discussão. ela precisou de uma foto feliz. e eu me vi. o campo minado das minhas inseguranças, detonando em câmera lenta. o sorriso dela era o gatilho. a felicidade dela era a porra da mão apertando minha garganta. a alegria dela se transformou na minha asfixia. e a voz em mim gritou: "ahhh, eu não sou porra nenhuma. eu não sou suficiente."

aquilo me esmagou, parça. não foi uma figura de linguagem. foi real. como se tivessem pisado na minha alma. deixando um buraco que sangrava, sem parar.

mas algo em mim, mesmo esmagado, se recusou a morrer. eu disse "parabéns" para ela. e não foi porra de educação. foi o último grito de adeus. uma despedida sangrenta do que ela representava dentro de mim.

a dor dela se tornou o meu combustível. a "vitória" dela não foi uma vitória contra mim. foi a porra da sentença de morte para a sombra que ela projetava sobre minha vida. e meu corpo reagiu. inchado. pesado. cansado. mas não quebrado. gritando: "você não vai me destruir. eu me recuso a ser destruído."

eu não sou mais o cara que se afoga em melancolia repetitiva. eu não sou mais o reflexo do que me disseram que eu era. eu não sou a versão desgastada de um lamento antigo. o fogo queimou. a madeira velha virou cinzas. e elas ainda estão quentes, se misturando com o meu suor, com o meu sangue. mas agora, elas são o meu chão.

e dessas cinzas, não nasce um recomeço. nasce o que resta de mim. o que restou depois de tudo que foi queimado, esmagado, detonado. um novo eu. bruto, direto, sem filtros. com a porra da cicatriz aberta de cada golpe.

o capítulo da Vitória acabou. ela foi o último teste. o golpe final que me empurrou para o abismo. e do abismo, eu estou de volta. mas agora, com os olhos bem abertos.

e essa é a minha vitória. não uma vitória contra alguém. mas a porra da vitória visceral sobre o meu próprio inferno, e sobre a porra da imagem que ela tentou me impor. aquilo que me esmagou, me quebrou, mas não me matou. um Felipe Quadro com mais cicatrizes. o cara que ainda está aqui.


e a vida continua. 

com a minha porra de alma. 

e ela é imparável.