sobre cachorros, orçamentos e a ilusão de que amor resolve alguma coisa
talvez seja impossível explicar daqui. de dentro do caos. você só percebe que era caos quando desce num aeroporto europeu e vê que cidade pode ser outra coisa. amsterdã. paris. lugares onde beleza não é acidente, é projeto. onde urbanismo não é cópia mal feita de algo que nunca vimos de perto.
eu passei a vida inteira num trajeto de 400km entre cidades de goiás. trecho que mal tem duplicação. neblina. verde. plantações. vazio. e no meio desse vazio, a gente tenta construir paris com cimento barato e boas intenções. falhamos. miseravelmente.
mas não é sobre arquitetura.
é sobre os cachorros caramelo que pintam cada rua dessa cidade. que ninguém vê. que o estranho nega que existem. "muitos cachorros? aqui não." mentira. ou cegueira seletiva. tanto faz.
desde pequeno eu reparei: homens e cães têm hábitos idênticos. você já viu cadela no cio? ela percorre quilômetros atrás do parceiro certo. é seguida por dezenas de machos. depois da cópula, ficam presos. literalmente. empatados. pênis travado na vagina. expostos. vulneráveis. esperando que a biologia libere.
a gente vê isso nas ruas que tentam imitar europa. nas esquinas. nos terrenos baldios. a cidade inteira testemunha e desvia o olhar.
tem gente que distribui afeto. que faz carinho. que posta foto. que segue o cachorro por quarteirões se achando bondosa. mas tocar um humano na rua? jamais. a gente escolhe onde depositar o amor baseado no que conforta, no que parece saudável aos nossos olhos. como imigrantes aprendem cedo: alguns sonhos não são pra você. alguns afetos têm limite de espécie.
eu venho tentando explicar pra autoridades a importância de políticas públicas para animais.
alguns têm discursos lindos. propõem leis. postam nas redes sociais. isso dá like. engajamento. eu faço isso também. num perfil que não é meu. no nome de alguém que nunca clicou em "configurações" mas aprendeu rápido a usar chat.
eu não sei se tenho propostas sólidas. não sei se minhas ações geram resultado. continuo mesmo assim. sem calcular. sem esperar retorno.
levantei uma bandeira silenciosa. uma luta inglória contra a avalanche de mídia pesada de quem ama cachorro porque é fofo. talvez seja burrice criticar quem quer ajudar sem sujar as mãos. quem quer se aproximar do abismo sem cair nele.
mas eu caí. e continuo caindo.
tenho falado com muita gente. sentado com chefe de gabinete. pregado em cada secretaria que visito.
as respostas são sempre as mesmas:
"animal não é como humano."
ainda bem.
"não tem de onde tirar dinheiro. você quer tirar da saúde?"
não. quero questionar por que servidor ganha 9 mil e a ong que cuida dos animais de mineiros há 15 anos recebe 9 mil. no mês. total.
9 mil reais não paga um procedimento completo num cão. não paga castração em escala. não paga ração. não paga nada.
mas paga a conta de luz da prefeitura por meia hora.
eu não sei o que estou fazendo.
não sei se isso importa.
mas toda vez que vejo um caramelo empatado no meio da rua, exposto, esperando que a biologia o liberte enquanto a cidade passa e finge que não vê...
eu continuo.
porque alguém tem que cair no abismo.
e eu já estou lá embaixo mesmo.