eu não sei o que nós somos, mas sei o que nunca seremos
por muito tempo eu fui o protagonista do meu próprio filme.
achava que pra ser feliz eu precisava ter tudo sob controle.
personagens, roteiro, cenário.
tudo meu. tudo posse.
até que um dia acordei e percebi que já não atuava num filme que eu dirigia.
era um filme alheio.
eu era figurante numa história que não escrevi.
assusta? talvez.
mas pela primeira vez não ter posse me trouxe paz.
e então surgiu você,
menina estranha que teme palhaço,
que busca abrigo em biblioteca,
que não acha graça nenhuma no jim carrey.
acho que "o show de truman" nunca te fez rir.
talvez porque você também tenha se sentido assim:
observada, dirigida, presa num roteiro que não escolheu.
você não é simples.
e a poesia entre a gente tampouco é.
mas é real, sabe?
pela primeira vez eu não precisei possuir pra sentir que era meu.
e quando você me pergunta se te acho boa ou ruim,
não sei nem como responder.
importa mesmo? logo pra mim,
que conto cada marca no teu pulso
e sinto a dor de cada uma delas como se fossem minhas?
a gente não tem nome. não tem rótulo. não tem promessa.
e ainda assim, eu não mudaria absolutamente nada.
talvez eu seja só um poema que você escreveu sem querer.
ou talvez você seja o poema que eu nunca tive coragem de escrever.
eu não sei o que nós somos,
mas sei o que nunca seremos:
nós nunca seremos posse.
pela primeira vez, não ter você
foi exatamente o que me fez te sentir mais minha.