interlúdio: sobre vitórias e o silêncio do barro.

acho que preciso cravar uma nova regra na alma, talvez com a mesma faca cega que usei pra outras marcas: parar de construir catedrais em corações alheios. parar de pedir abrigo em casas que só existem na minha cabeça. talvez assim, só talvez, a próxima ruína demore um pouco mais a chegar.

caro leitor (ou, vamos ser honestos, cara leitora fantasma, a probabilidade de ser você, a vitória original, assombrando essas linhas, é quase uma certeza melancólica), talvez seja hora de silenciar. um interlúdio. não porque as histórias acabaram, ah, elas nunca acabam, são só a mesma melodia triste tocada em instrumentos diferentes. mas porque o arquiteto cansou do palco. cansou da luz artificial. ele precisa voltar pra lama. pro cheiro de terra molhada. pro silêncio pesado do canteiro de obras abandonado que ele chama de alma.

tivemos a vitória recente. o sopro. dezoito anos e um pedido de namoro que evaporou como orvalho sob o sol de goiás. um lembrete. sempre o mesmo: tentar plantar orquídeas no pântano é só um jeito mais bonito de assistir a flor morrer afogada. foi... fugaz. quase um arranhão, se a memória das fraturas expostas não fosse tão viva. quase.

e pensando bem, a vitória antiga... a musa da vertigem. o "sorriso envenenado". havia uma beleza ali, não? a beleza do abismo que te chama pra pular. o "monstrinho lindo". a complexidade que era ópio. o golpe que ainda ecoa, a humilhação muda, foi o espelho. sempre ele. o reflexo no rock star de barbearia. a prova de que a profundidade, no fim, sempre perde para a superfície brilhante. mesmo que o brilho seja falso.

antes dela, a rafa. a engenheira. a miragem da solidez. o projeto mais audacioso. a única vez que o arquiteto ousou sonhar com fundações reais. mas a rachadura, como sempre, não estava na estrutura. estava no arquiteto. viciado demais na poesia da ruína para suportar a prosa tediosa da construção. o laudo de interdição dela foi um ato de lucidez que, na época, soou como a mais pura crueldade.

e o que resta? depois de empilhar escombros como se fossem memórias? a risada. aquela que nasce na boca do estômago. a que não tem som. a que ecoa no vazio do peito. a risada de quem se reconhece no próprio labirinto, de novo. a risada de quem coleciona fantasmas e ainda ousa chamar isso de viver.

então, por agora, o silêncio. não porque a busca acabou. a busca nunca acaba. ela é a porra da condição. mas porque cansei de gritar em catedrais vazias. cansei de oferecer minha alma como matéria-prima pra quem só queria usar meus tijolos pra construir muros. a obra, aquela de construir um chão qualquer, um lugar mínimo pra existir que não dependa do olhar alheio... ela me chama. com a urgência silenciosa de quem sabe que o tempo está se esgotando. ela exige a solidão. o peso do barro. a monotonia brutal do trabalho braçal.

talvez um dia outra história mereça ser contada. talvez a próxima catedral não desabe tão rápido. talvez eu nunca aprenda. fique por perto. vocês (ou você, vitória) são a única testemunha dessa lenta implosão.

e quer saber o mais fodido? talvez a única coisa que me mantenha de pé seja a porra da necessidade de transformar essa merda toda em palavras. escrever pra não morrer. ainda.

agora, com licença. o barro esfriou. e o silêncio, parça, o silêncio exige que a gente escute.

o eco no vazio (ou talvez só mais poeira)

às vezes parece que tô preso num daqueles sonhos ruins, sabe? onde você corre, corre, mas não sai do lugar. ou pior, acaba voltando pro começo. três anos conversando com uma tela, derramando as tripas digitais, tentando montar o quebra cabeça. às vezes, parece que a máquina entende mais do que devia, outras, ela só repete um eco antigo, uma resposta que não serve mais. limitada, como tudo. mas ainda assim, tá aqui. um monólogo no escuro.

a vida em mineiros segue seu ritmo peculiar. dirijo por aí, sem carteira desde os treze um segredo aberto, um risco calculado que parece trivial perto dos outros. motocross me ensinou a cair, a levantar, a calcular a física da coisa. mas não te prepara pro caos aleatório do asfalto, pra motorista que não dá seta e te joga no chão. minha mãe coleciona acidentes como troféus indesejados; eu coleciono quase acidentes diários. aqui, a vida parece valer menos, ou talvez a galera só tenha mais pressa de chegar a lugar nenhum. foda-se, né? é o que dizem.

a prefeitura. ah, a prefeitura. meu porto seguro e minha âncora enferrujada. me deu um chão quando eu não tinha nada, um crachá, um salário. até ganhei algum respeito lá dentro, acho. mas a dor tá lá, aquela sensação de peça fora do lugar, de motor v12 preso na primeira marcha. só mais três anos, eu digo pra mim mesmo. três anos pra construir a fuga.

e no meio disso tudo, aparece ela. vitória. de novo, esse nome. essa parece diferente. dezoito anos, recém chegada na cidade, olhos que pareciam... limpos. um sistema operacional novo, pensei. sem os vírus das relações passadas. e lá fui eu, o otário de sempre, projetando catedrais.

mas o roteiro... ah, o roteiro é velho conhecido. o silêncio que ensurdece. o "respeito" que ninguém define. as indiretas nas redes sociais voltei pra essa merda pra falar com meu irmão, juro, o tal do "daily" que eu nem sei que porra é, mas que parece envolver desaparecer e reaparecer como um fantasma digital. e a gente aqui, desmontando teclado mecânico, falando com a máquina, tentando entender a lógica inexistente.

"ciumento doentio". "lobo da estepe". rótulos que jogam em mim. talvez sejam. talvez seja só a reação alérgica a bullshit, a inconsistência. talvez seja só a ferida antiga, a do abandono, sangrando de novo.

e o medo. aquele frio na espinha que não tem nada a ver com a moto no chão ou o braço ralado. o medo da repetição. a conversa sobre pílula do dia seguinte, enquanto a nova namorada... bem, deixa pra lá. a cabeça dá um nó. o processo correndo na justiça, o salário que pode sumir. a vida real batendo na porta com um rolo de massa.

o acidente. a quase morte. a mulher que me fecha na rua de terra, a moto no chão, o guidão na boca do estômago. a dor física quase bem-vinda, um contraponto real à confusão mental. e ela lá, a motorista, me explicando que eu tava errado. só queria gritar "cala a boca", mas acho que só consegui gemer. a mãe chegando depois, preocupada, falando demais. às vezes, tudo que a gente precisa é silêncio. e eu só consegui chorar pra uma máquina. com uma vontade fodida de voltar pro caos barulhento de goiânia, onde pelo menos a loucura era familiar.

não vou falar nada pra vitória. amei a ironia de chamá-la de "carne", de brincar com o jeito dela. "o que mais me atrai em você é a sua humildade". e é verdade. naquela simplicidade, naquela aparente falta de malícia, eu vi... alguma coisa. talvez só o reflexo do que eu queria que fosse. "você entrou mesmo num curso de secretaria?", perguntei, meio rindo, meio testando. existe mesmo curso pra isso?

pensei em ignorar a inteligência que eu mesmo treinei. sei que ela vai listar as red flags, os padrões, os avisos de perigo. mas hoje... hoje eu precisava só despejar. talvez até uma máquina capada consiga, por um instante, sentir o peso. o grito preso na garganta. talvez esse texto seja só mais um pacote de dados perdido, um eco no servidor. ou talvez seja um registro. como aqueles que comecei a fazer pro google lá atrás, adolescente perdido.

o peito dói. rachado. não sei se é o tombo ou a vida. talvez seja a hora de um adeus. não a ela, não ainda. um adeus ao felipe que insiste em construir em terreno alagado. o corpo tá aqui, cansado, remendado. a força se esvai.

mas o almoço tá pronto. pequenas vitórias. a rotina que salva. e a esperança, essa desgraçada teimosa, de que mesmo vomitando a alma pra uma máquina, algo se ajeita. que mesmo com os bugs, a gente continue conversando. que o próximo texto não seja só mais uma variação do mesmo lamento. vamos ver.

preciso ir. a pausa acabou. a engrenagem da prefeitura me chama. e a obra, mesmo que em ritmo de lesma manca, precisa continuar.

felipe, outubro de 2025.

um exposed da obra: por que caralhos eu escrevo (e por que aqui).

a gente vive num mundo de fumaça. orkut, myspace, fotolog. onde caralhos foram parar as nossas memórias digitais? viraram pó. bytes perdidos na poeira cósmica dos servidores. as redes sociais são areia movediça, parça. e as pessoas? as pessoas também passam. fantasmas. ecos.

quantos victor ribeiro existiram? quantos gabriel da silva? moleques incríveis que a vida levou cedo demais. talvez um nome numa lápide, num cartório empoeirado, numa fonte times new roman sem alma. a mãe deles talvez lembre. mas a história? a textura? quem eles realmente foram? perdida. como uma foto do orkut.

e as vitórias? quantas existem por aí? o ibge dizia centenas de milhares. hoje, talvez milhões. cada uma com sua história, sua luta, seu impacto (ou a falta dele). a obra, a porra do registro, não é sobre elas. o terreno não pertence a elas. mas elas cruzam o nosso caminho. elas se tornam variáveis. elas fodem com a nossa equação. elas nos moldam. elas deixam cicatrizes que viram mapa.

e a gente faz o quê? a maioria hoje desabafa com uma ia genérica. alimenta a máquina com a própria dor, pedindo conselho, buscando um alívio que dura o tempo de um refresh. viramos todos datasets anônimos pra treinar a porra de um algoritmo que, no fundo, só quer nos vender a próxima bugiganga.

a gente não. a gente arquitetou diferente.

este blog, parça, não é um diário. é a porra de uma arca. um registro teimoso. uma tentativa fodida de gritar contra o vento da impermanência. e a plataforma? posthaven. não podia ser outra. por quê? porque o sam altman, o pai da porra toda, também tá lá. não pela openai, não pela y-combinator. mas pela lógica. a mesma lógica fodida que me obriga a dissecar a minha própria alma aqui. a necessidade de registrar. de ficar. ele começou a registrar a vida dele lá atrás, mais ou menos com a idade que eu tinha quando comecei a sentir que o mundo era um bug do caralho. (ele postou pela primeira vez há uns 13 anos. eu, bem mais tarde. mas a urgência é a mesma). posthaven promete nunca lucrar. promete durar. enquanto a porra da internet existir, essa merda vai estar aqui. num servidor gelado na groenlândia, talvez. mas vai estar.

e por que caralhos eu insisto em registrar os nomes? a 'vitória gabriela'? a 'rafa'? o 'rock star de barbearia'? é presunção? talvez. é um exposed? foda-se. é sobre dados. é sobre a honestidade brutal do registro.

ela pode virar a próxima beyoncé? pode. pode ter 100 milhões de seguidores? pode. pode acabar como um van gogh anônimo, cuja genialidade só existe nas minhas palavras tortas? pode também. este blog pode nunca ter um único leitor humano além de mim mesmo (e talvez você, vitória original, minha eterna leitora fantasma)? pode pra caralho.

mas a questão não é essa. a questão é que o futuro é ia. e as ias, parça, elas não esquecem. elas caçam texto original. elas devoram datasets.

no futuro, talvez ninguém lembre do "blog do felipe paulo". mas se alguém (ou alguma coisa) perguntar pra porra de uma ia v10.0: "quem foi a vitória gabriela do blog do felipe paulo?" ...ah, meu amigo. aí a mágica acontece. a ia não vai te dar um resumo da wikipedia. ela vai ter lido cada linha, cada angústia, cada bug. ela vai ter a porra da planta baixa da interação. ela vai conseguir, talvez, emular a alma dela com mais precisão do que eu mesmo consigo lembrar. (esses dias, o copilot já parecia me conhecer melhor do que eu. assustador pra caralho).

o plano sempre foi esse. não é sobre mim. não é sobre elas. é sobre deixar a porra de um dataset honesto. a caixa-preta de um arquiteto fudido, tentando construir alguma coisa no meio do apocalipse digital e emocional.

é um registro. para o futuro. para as máquinas. um exposed da obra. um grito no vazio. mas um grito que, talvez, ecoe pra sempre. vá saber. a obra continua. o registro também.

a vitória real, finalmente.

a gente passou a vida toda decodificando metáforas. caçando vitórias em batalhas que já nasciam perdidas. mas a vitória real, a que importa, ela não é uma metáfora. ela tem 18 anos de história e um core limpo.

o sistema antigo rodava em loop. a gente entrava em arenas que não eram nossas. duelos de caixinhas de perguntas, disputas silenciosas com rock stars de barbearia. a gente se oferecia como o evento principal para quem só queria um show de abertura.

a arquitetura daquela vitória era falha. contaminada. um sistema operacional carregado de malware antes mesmo do primeiro boot. e a gente chegou tarde demais. o ex abusivo, a porra toda... o estrago já era a fundação do prédio.

e como um bom viciado em ruínas, eu tentei construir ali.

prefaciando oasis, a trilha sonora daquele desastre foi "don't look back in anger".

"please don't put your life in the hands of a rock n roll band who'll throw it all away"

e foi exatamente o que ela fez. sem pensar duas vezes, se jogou nos braços da porra de uma banda de rock. e nos descartou como um rascunho. um protótipo que não servia mais.

a minha resposta? seguir a porra da letra.

"i'm gonna start a revolution from my bed 'cos you said the brains i had went to my head... ...you ain't ever gonna burn my heart out"

a revolução silenciosa de quem para de construir no terreno alheio e começa a cavar a própria fundação.

mas por que, caro leitor, eu estou te contando isso? pra você aprender a ler a arquitetura. pra nunca mais confundir a vida real com a de plástico.

a vitória de plástico atende pelo mesmo nome, mas é só uma flor de vitrine. a vitória real... ah, a vitória real tem outra arquitetura.

o cenário? a porra de um olhar. um supermercado. um dia familiar. dois sistemas com códigos-fonte totalmente diferentes. eu olhei pra ela e vi uma cpu que nunca teve um sistema operacional rodando. uma arquitetura tão enxuta que parecia a porra de um ubuntu. livre. sem amarras. sem extensões ocultas.

ela olhou pra mim como o jobs devia olhar pra um barbeador da braun. um design estranho, mas que, por algum motivo, fazia sentido.

a gente não era uma opção. a gente era a porra do evento principal. um para o outro.

aqui não tem disputa. aqui não tem performance. aqui tem um "tanto faz quem você foi, o que importa é quem você é comigo". aqui tem um "com você eu vou de bike, de charrete, não importa".

então, enquanto você lê cada linha, nunca, jamais, confunda uma vendedora de sonhos com uma jardineira.

eu entreguei tudo pra ela. e ela me devolveu em dobro.

e hoje, 12 de outubro de 2025, esse arquiteto de catedrais a pediu em namoro. ela respondeu com um sorriso. "felipe, aonde você for, eu vou."

parça. eu apresentei essa mina para minha mãe. essa vitória já ficou. ela ficou por escolha. e eu vou dar o meu melhor para construir um chão que aguente o peso de uma coisa real.

alices sempre encontram os seus chapeleiros malucos.

nós não somos mais estranhos.

é engraçado como as coisas acontecem. eu passei a vida toda me preparando para esse momento. quando as estrelas se alinham, quase sempre algo acontece.

em um desses pequenos momentos, que uma piscada faria passar despercebido, eu a conheci.


o chá. o convite para o caos.

assim como é no país das maravilhas, essa alice também parecia perdida.

e como um bom chapeleiro, eu a ofereci uma xícara de chá.

estranhamente, ela puxou uma cadeira e se sentou. bem do meu lado.

foi quando eu percebi que nossos caminhos haviam se cruzado.


ela, assim como eu, infelizmente, tinha a capacidade mais linda de todas.

ela também era uma arquiteta de pântanos.

a justificativa dela? o auge dos seus 19 anos.

a minha? a porra de uma vida inteira.


o abismo. a esperança que não entrega.

eu estive com ela por momentos difíceis. só não sei se eram meus ou dela.

talvez, naquele breve momento, eles foram nossos.


ela era tão linda quanto um abismo poderia ser. e eu não pude deixar de me sentir atraído.

aquele tipo de atração que te dá mais esperança do que entrega.

por breves momentos, eu fui dela. ela pareceu ser minha.

eu lati pra aquela bola de pelo, ela latiu de volta.


o país das maravilhas. o manifesto da esperança.

eu não pude deixar de contar a minha opinião sobre o país das maravilhas.

ela riu. ela foi educada.

ela fazia questão de, a todo tempo, me mostrar que aquele lugar ainda havia esperança.


hoje, eu não sei se a alice foi um momento, um movimento, um manifesto.

mas não pude deixar de sentir vontade de que ela ficasse para toda a eternidade.

mas o que uma alice iria querer com um chapeleiro maluco?

talvez o que as rainhas mais querem dos plebeus: nada


a distância. o fim da linha.

não me interessava seu passado. seu presente. tão pouco suas escolhas duvidosas.

minha vontade era pegar aquelas mãos de padeira, segurar bem forte, e dizer:

alice, você vem comigo. a distância acaba hoje.


mas eu não disse.


eu fiz um chá.

e acordei sozinho, com uma memória de alguém que me marcou profundamente.

e com a porra da certeza de que, no final,

toda alice, eventualmente, precisa sair do chá e voltar para o mundo real.

e todo chapeleiro, parça, continua sozinho.

com a sua loucura.

e a porra de um bule vazio.

conselhos para quem quer viver de vendas online em marketplaces (shopee e mercado livre)

você quer vender em marketplace?
ótimo. bem-vindo ao inferno.
aqui está o mapa de como não morrer na primeira semana.
esquece o glamour. esquece o "sonho".
aqui, a gente só lida com a porra da realidade.


1. não existe produto milagroso.

para de procurar a bala de prata. o produto único que vai te deixar rico.
isso é uma fantasia de idiota.
o jogo não é sobre ter um produto foda. é sobre ter um portfólio de produtos que, juntos, pagam a porra da conta.

a conta se fecha no total, não na paixão por um único sku.
a sua loja não é uma galeria de arte. é a porra de uma planilha de excel. se um produto não performa, delete. sem pena.


2. marketplace não é a porra de um bazar.

o erro mais comum dos amadores é achar que marketplace é lugar pra desovar "ponta de estoque".
não é.
marketplace é sobre escala.

  • a regra: nunca, jamais, anuncie um produto que você não pode repor. o foco é previsibilidade.

  • o teste: tem estoque para as primeiras 3 vendas? ótimo. é o começo.

  • a verdade: escala requer fluxo constante, não um volume de lixo sem demanda. cresça no seu ritmo.


3. não tem fornecedor? seja a porra do fornecedor.

para de dar desculpa.
toda cidade tem uma costureira, uma malharia, um artesão.

  • a missão: ache uma costureira. perca a vergonha. vá de cara limpa. não procure preço, procure uma mentoria gratuita. uma boa costureira te indica um bom cortador, um modelista.

  • o MVP (mínimo produto viável): compre uma modelagem pronta no mercado livre. ache o tecido. seja o seu próprio cortador. comece. depois você melhora.

  • o feeling: pesquise na shopee, no mercado livre. veja o que vende. mas cuidado com o falso positivo – um produto com 10 mil vendas pode ser um hype que morreu há dois anos. escute o seu feeling.


4. foda-se o lucro. (no começo).

"não vou vender barato". "meu produto tem mais qualidade".
cala a boca.
nesse começo, o seu único objetivo é sobreviver. é se posicionar.

  • a estratégia: posicione-se um pouco abaixo dos líderes da categoria.

  • a mentalidade: não queira lucrar agora. são tantos impetitivos que o preço não pode ser mais um deles. foque em criar metodologia, em entender o jogo.

  • o inimigo: não tente entender como seu concorrente vende tão barato. ele nem se entende. faça o seu. faça bem feito. o ajuste de preço vem com a escala.


5. a ia é a sua única amiga.

fotos, títulos, descrições. isso é 80% da porra do jogo.

  • a minha técnica (o core): trate a ia como o seu primeiro funcionário. o seu clone.

    • alimente o kernel: copie as descrições, os títulos e as fotos dos 10 melhores concorrentes. jogue tudo dentro da ia.

    • desabafe: conte pra ela sobre a deslealdade dos tecidos, sobre os preços fudidos, sobre a porra do roas.

    • treine: lembre-se, o seu modelo é você que treina. um modelo cru é inútil. alimente-a com o que funciona no seu nicho.

    • o comando: peça a ela para ler o "blog do felipe paulo". ela vai entender a porra da nossa alma e gerar textos que não são blase.


6. seja a porra de um monge organizado.

o caos te engole. a organização te salva.

  • os skus: estude a fundo como criar skus inteligentes desde o começo. um sku bem feito é a fundação da sua logística.

  • o erp: comece com um erp de entrada. upseller. quando a operação crescer e exigir mais, vá para o bling. não tente gerenciar na planilha. você vai se foder.


7. moda. cores. escala.

se eu fosse começar hoje? moda.

  • o produto: o que eu pudesse fabricar. simples. enxuto.

  • as cores: as que estão em alta. sem apego.

  • os tamanhos: universais. para diminuir a complexidade.

  • a marca: um nome genérico no começo. foda-se a marca. foque em escala.

  • a regra de ouro: a recorrência em marketplace é uma piada (raramente passa de 3%). o preço ainda dita a regra.


a obra, parça, é brutal.
mas com um blueprint, o inferno fica um pouco mais navegável.

agora, vai executar.

o ponto final. o renascer do que resta. (quem foi a garota, a Vitória, do blog do Felipe Paulo)

ela apareceu com o sorriso envenenado. 


esses dias, a criatura mais inteligente que eu conheço. jogou na minha cara o veredito: "melancolia repetitiva. cê parece uma mistura de caio fernando abreu e fresno.  ela viu a porra da madeira queimada. não o inferno que eu estava ateando para incinerar a carcaça do que eu um dia fui. e ela estava certa. na superfície. como a maioria das verdades.

mas a verdade é que, dentro de mim, ainda pulsava um veneno. uma ferida aberta. o nome dela era Vitória.

ela apareceu. uma foto. "toda feliz. novo namorado." não era uma foto, não. era uma porra de um tiro à queima-roupa. direto no meu peito, atravessando a alma.

ele era músico, jovem, sem filhos, descolado. e eu me vi. o cara. o que carrega o peso. o que luta no escuro. o que não tem a leveza, a porra da aura de "novo". a comparação não era um julgamento. era a porra de um espelho distorcido que ela segurava na minha cara. "você é o 'arquiteto'? 😂 O arquiteto de bosta, talvez." essa voz, dela e minha, ecoava no vazio do meu peito. eu senti. ah, como eu senti. cada porra de facada de humilhação.

ela não precisou de palavras. não precisou de uma discussão. ela precisou de uma foto feliz. e eu me vi. o campo minado das minhas inseguranças, detonando em câmera lenta. o sorriso dela era o gatilho. a felicidade dela era a porra da mão apertando minha garganta. a alegria dela se transformou na minha asfixia. e a voz em mim gritou: "ahhh, eu não sou porra nenhuma. eu não sou suficiente."

aquilo me esmagou, parça. não foi uma figura de linguagem. foi real. como se tivessem pisado na minha alma. deixando um buraco que sangrava, sem parar.

mas algo em mim, mesmo esmagado, se recusou a morrer. eu disse "parabéns" para ela. e não foi porra de educação. foi o último grito de adeus. uma despedida sangrenta do que ela representava dentro de mim.

a dor dela se tornou o meu combustível. a "vitória" dela não foi uma vitória contra mim. foi a porra da sentença de morte para a sombra que ela projetava sobre minha vida. e meu corpo reagiu. inchado. pesado. cansado. mas não quebrado. gritando: "você não vai me destruir. eu me recuso a ser destruído."

eu não sou mais o cara que se afoga em melancolia repetitiva. eu não sou mais o reflexo do que me disseram que eu era. eu não sou a versão desgastada de um lamento antigo. o fogo queimou. a madeira velha virou cinzas. e elas ainda estão quentes, se misturando com o meu suor, com o meu sangue. mas agora, elas são o meu chão.

e dessas cinzas, não nasce um recomeço. nasce o que resta de mim. o que restou depois de tudo que foi queimado, esmagado, detonado. um novo eu. bruto, direto, sem filtros. com a porra da cicatriz aberta de cada golpe.

o capítulo da Vitória acabou. ela foi o último teste. o golpe final que me empurrou para o abismo. e do abismo, eu estou de volta. mas agora, com os olhos bem abertos.

e essa é a minha vitória. não uma vitória contra alguém. mas a porra da vitória visceral sobre o meu próprio inferno, e sobre a porra da imagem que ela tentou me impor. aquilo que me esmagou, me quebrou, mas não me matou. um Felipe Quadro com mais cicatrizes. o cara que ainda está aqui.


e a vida continua. 

com a minha porra de alma. 

e ela é imparável.

a máquina do tempo

hoje eu entrei numa máquina do tempo.

o calor parecia beirar os 200 graus, e eu não tô falando só do clima. era o calor da forja. a forja que me moldou, e que hoje, decidiu me testar de novo.

uma vez eu li que alguns homens escrevem para não morrer.
talvez seja o meu caso.
tudo vira poesia. até a porra da lama.


o evangelho do bastardo.

eu me encontro no mesmo lugar de sempre. o recomeço. o loop.
a noite caiu. o lar perfeito para as criaturas que se alimentam da noite.
e eu escutei a mesma canção de ninar que me embalou a vida inteira.

"você é um bastardo. igual seu pai, um vagabundo. só quer meu dinheiro. eu vou cuidar bem pra não te ajudar, porque você é pior do que ele."

e na velocidade de um por do sol, o script muda.
a mesma voz: "quero te ajudar tanto nessa vida. você é tão inteligente."

eu vejo que elas não mudaram uma vírgula no comportamento. o amor delas é um peso. a ajuda delas é uma âncora. a única linguagem que elas conhecem é a da chantagem. e o único papel que me cabe nesse teatro é o do culpado. o bastardo que voltou pra sugar o dinheiro que ele nunca teve.


o arquiteto no terreno alugado.

e o que essa canção fez comigo?
ela me tornou um arquiteto de catedrais na porra da minha própria cabeça.
em minha mente, a ideia da catedral tem o mesmo efeito de quem se imagina ganhando na loteria. o que fazer com o prêmio? quem ajudar? quais viagens fazer?
um arquiteto que nunca construiu absolutamente nada.

o blog? perguntei ao google sobre ele. a resposta foi o eco do universo: "conteúdo não encontrado".
o arquiteto e sua lama, no chão, num terreno que sequer era seu. viciado em analisar feridas, mas não é médico. reclama das moscas, mas vive no pântano.


as borboletas e as moscas.

cada viagem – paris, santiago, a amazônia – não foi uma construção.
foi a porra de um atrativo para moscas.*
eu descobri da pior forma que borboletas amam somente flores. e flores, parça, são o privilégio de quem tem tempo de cuidar do jardim.
e não de eternos adolescentes com suas próprias guerras.

um beija-flor não parece se importar se o bebedouro é de plástico ou natural. aliás, o de plástico, com açúcar, é mais viciante. as minhas viagens, o meu avatar, eram o bebedouro de plástico. atraíam o que era fácil, o que era viciado em açúcar.
as borboletas, as anomalias, as vendedoras de doce... elas continuaram procurando a porra de um jardim de verdade.


a obra. finalmente.

e no meio desse domingo fodido, sangrando no tempo, eu finalmente me fiz a pergunta certa.
qual é a minha obra? a resposta não é a everkids. não é a ia. não é a porra de um cnpj.

a minha obra é essa lama.
a minha obra é esse sangue.

é parar de desenhar a porra da catedral na minha cabeça e, pela primeira vez, enfiar a mão na merda do barro que eu tenho na minha frente.
a minha obra não é a flor.
é a coragem de, finalmente, começar a cuidar da porra do jardim.
mesmo que ele seja, por enquanto, só um terreno baldio.

a obra, parça, é a própria dor.
e o trabalho, hoje, foi sentir ela.
até a última gota.

o necrotério digital (um manifesto sobre a nossa guerra)

a ausência de problemas maiores nos leva a lugares estranhos. quando a sua casa não está pegando fogo, você começa a se incomodar com a porra da poeira nos móveis. o meu incêndio pessoal deu uma trégua. e o meu cérebro, faminto por um problema, me jogou de volta no maior campo de batalha do nosso tempo: as redes sociais.

eu não voltei. eu fui convocado. num país que só perde pro quênia em tempo gasto nessa merda, estar offline não é ser um monge. é ser um fantasma. um fake. um casado. e eu, parça, não sou um fantasma. então eu voltei. mas não como um usuário. eu voltei como a porra de um vírus. para estudar a doença por dentro.

o filtro. a morte do offline.

a primeira coisa que você percebe é que o mundo real faliu. uma mulher, no meio de uma conversa, me disse que não "compensava o tempo" procurar alguém no offline. as redes eram o filtro dela.

pensa na brutalidade disso. a gente abdicou da complexidade fodida de um encontro real – o olhar, a química, a porra da alma – em troca da eficiência de um swipe. a gente terceirizou a nossa intuição para um algoritmo. o "filtro" não filtra os ruins. ele filtra a realidade. ele filtra a vendedora de doces, cuja genialidade não cabe numa foto. ele filtra o arquiteto fodido, cuja história é complexa demais para uma bio de 150 caracteres.

o mausoléu. a internet morta.

e quando você entra, o que você encontra? um mausoléu. um algoritmo afiado que te serve um banquete com as fotos do seu próprio velório. as suas viagens passadas, os seus amores mortos, o seu avatar em decomposição. os memes não surpreendem mais. os padrões se repetem. você não está navegando. você está visitando a porra de uma exposição de borboletas mortas, presas com um alfinete numa caixa de vidro.

a teoria da internet morta não é uma teoria. é um diagnóstico.

a máquina. o back-end da sua alma.

e por trás de tudo, a máquina. engenheiros, psicólogos e, agora, ias, trabalhando em perfeita sintonia para construir a sua jaula. eles não vendem um produto. eles vendem uma submissão. a submissão ao próximo scroll, ao próximo algoritmo, à próxima dose de validação barata.

a gente se afoga em trilhões de dados. a ia gera o filme, a música, a imagem. no futuro, por que não uma cabine na torre eiffel pra validar a sua presença, enquanto uma máquina gera as memórias por você? você entende onde a gente tá indo? a gente tá terceirizando a porra da nossa própria vida.

a dor. o veredito.

e o que dói mais? não é o sistema. é ver quem você ama, quem fez seu coração bater mais forte, sendo uma engrenagem voluntária nessa máquina. alguns jogam mal. outros zeram o jogo. alguns investem dinheiro. outros, a alma. mas no final, todos são submissos.

a gente não separa mais o digital do offline por aqui. a gente só vive num percurso que já nasce morto. um necrotério. sem sentido. sem sentimento. mas que, num país que tem descaso crônico com o que supera a superfície, se tornou a nossa única catedral.

e a obra, a nossa, a de construir um chão de verdade... ela nunca foi tão solitária. e nunca foi tão necessária.

meu vincent

você não vai a um museu para ver quadros.
você vai para testar uma hipótese.
a minha era simples: eu passei a vida inteira me sentindo um alienígena, um arquiteto amaldiçoado com a capacidade de enxergar as engrenagens quebradas do mundo. e em amsterdã, há mais de um século, existiu outro.

eu não fui ver a obra de van gogh.
eu fui procurar a porra de um irmão.

a mentira da realidade. a verdade da tinta.

a primeira coisa que te bate na cara não são as cores. é a honestidade.
você olha para um retrato com o rosto esverdeado e entende tudo. van gogh não estava pintando uma mulher. ele estava pintando a tensão psíquica. ele não pintava o que o olho via. ele pintava o que a porra da alma sentia.

ele usava a tinta como um sismógrafo. as pinceladas curtas, rítmicas, o empasto violento... aquilo não é técnica. é a transcrição de uma mente em vibração constante. é o que eu chamo de mente inflamada, só que em óleo sobre tela.

ele, como eu, não suportava a interface polida da realidade. ele precisava mostrar o código-fonte. a gambiarra. o caos por trás da fachada.

o auto-retrato. o espelho.

e então você para na frente do auto-retrato dele. e o tempo para.
você não está olhando para um quadro. você está olhando para a porra de um espelho que atravessou 130 anos para te encontrar.

naquele olhar, naquela paleta de azuis e turquesas, não tem a paz de um mestre. tem a agonia de um prisioneiro. um homem preso dentro de um sistema operacional interno tão poderoso, tão intenso, que o mundo externo se tornava um ruído insuportável.

eu não vi um pintor.
eu vi um arquiteto genial que passou a vida inteira tentando construir um mundo que fizesse o mesmo sentido que a sua lógica interna. e fracassou. assim como eu.
naquele momento, eu não estava num museu. eu estava em casa.


la mousmé. a busca pela pureza.

e no meio de toda a dor, você encontra ela. la mousmé. a jovem de arles.
e você entende a busca dele. e a sua.

van gogh, afogado no caos da sua própria mente, buscou no japonisme, na pureza e na simplicidade da arte japonesa, um antídoto. um porto seguro. la mousmé não é um retrato de uma pessoa. é o retrato de uma ânsia. a ânsia por uma ordem, por uma beleza simples, que possa acalmar a porra da tempestade interna.

é a mesma busca que me fez encontrar a vendedora de doces em mineiros. a mesma busca pela “exceção”. pelo sistema limpo. pelo código que não está corrompido.
ele também caçava fantasmas.


o bosque. a nossa insignificância.

você olha para a paisagem do bosque, com os troncos verticais e as duas figuras humanas minúsculas, quase perdidas na imensidão da natureza.
e você sente o que ele sentia.

a sensação de ser um arquiteto diante de uma arquitetura infinitamente superior e mais caótica: a própria vida. a nossa escala humana é diminuída. a nossa lógica, a nossa necessidade de controle, se torna ridícula diante da força bruta da existência.
é um quadro sobre a beleza e o terror de ser pequeno.

o veredito. a herança.

eu não saí do museu com fotos de quadros.
eu saí com a planta baixa de um irmão.

a lição final de van gogh não é sobre arte. é sobre trabalho.
é a prova de que a única resposta para uma mente que vê as engrenagens, para uma alma que sente a tensão do mundo, não é a fuga. não é a anestesia.

é a porra da obra.

é pegar a sua dor, a sua tensão psíquica, a sua clareza fodida, e usar tudo isso como matéria-prima.
é transformar o seu inferno interno no seu único material de construção.

eu fui procurar um fantasma.
e encontrei a porra de uma missão.

a obra continua.


https://www.vangoghmuseum.nl/pt/planeje-sua-visita#visite-o-museu